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domingo, 1 de abril de 2012

Sadomusicistas: Quando a sensualidade, profissionalidade e teatralidade se misturam.

Uma pessoa que tenha rido com gosto ao menos uma vez na vida não pode ser irremediavelmente toda ruim. Thomas Carlyle




         A primeira vez que eu vi esse nome "SADOMUSICISTAS" foi através de um post postado pela professora. Dra. Mirna Rubim (UNIRIO) no fluxo noticiário do facebook. Fiquei super curioso e fiquei possesso de curiosidade e prazer. Esse grupo de mulheres quentes musicalmente, vem nos mostrando que o percurso que um artista precisa percorrer para atingir o cume do Everest artístico, também é marcado por momentos de dores e de nãos, no entanto, sempre há de momentos de prazer seguido de delírios de júbilo. Quantos de nós ao sonharmos alcançar alguns objetivos na carreira, levamos tocos e batemos com a cara no paredão das burocracias da existência? Adélia Prado foi sábia ao dizer que a vida também é um soco no estômago. Quantos de nós já pensamos em desistir diante do primeiro NÃO que nos desestruturou pela raíz nos tornando indefesos temporariamente? Muitos artistas talentosos morreram pelas ciladas\armadilhas castrativas da existência, porém, muitos talentosos desafiaram a força da gravidade e ousaram a cair para cima, pois a sensibilidade da alma e a engrenagem da sustentabilidade dos sonhos potencializaram o espírito quebrantado, pois o poder do Sagrado (Deus) se aperfeiçoa nas fraquezas. Nas guaritas mais secretas do artista, ouve-se a divina voz: “A máquina de sofrer é uma peça de uma máquina que não pára de gozar consigo mesmo". (Gilles Deleuze e Félix Guattari).
          O filósofo, Prof. Dr. Oswaldo Giacóia, ao fazer um paralelo entre Nietzsche e Sade, acentua que o desejo e o prazer sádicos não podem encontrar satisfação senão no movimento perpétuo em que se consuma, pela destruição, o gozo como esgotamento e fruição total do objeto, destruição cujo o efeito principal é a potencialização do desejo e da necessidade de nova fruição, reproduzindo indefinidamente o movimento, numa espiral ascendente de prazer, dor e destruição. O desejo e o prazer sádicos não podem encontrar um limite de satisfação, porque a intensificação ao infinito é a lei interna de sua reprodução.
          Sade compreendia a vida como potência infinita de criação e Nietzsche vai pensar a vida, como um conjunto da natureza não-pacificada e não-acomodável às necessidades, porque ela é um campo de guerra e desequilíbrio de forças. A natureza como vida, não é mesquinha em suas formas, mas perdulária e dissipadora de suas criações. Aproximar Sade e Nietzsche nos instiga à fazermos menção do significado das festas culturais em honra de Dionysos e das bacanais. Nietzsche escreveu:“A Psicologia do Orgiástico como um exuberante sentimento de vida e força, no interior do qual mesmo a dor atua ainda como estimulante dando-nos a chave para o conceito do sentimento do trágico. O que o heleno garantia a si mesmo nesses mistérios? A vida eterna, o eterno retorno da vida, o triunfante sim à vida, para além da morte e mudança; a verdadeira vida como sobrevivência coletiva pela geração, pelos mistérios da sexualidade. Para os gregos, o símbolo sexual era símbolo venerável em si, o verdadeiro sentido profundo dentro de toda religiosidade antiga. Na doutrina dos mistérios a dor é declarada santa.
          Tal glorificação do sofrimento como condição de vida, implica uma reconceituação do prazer, que permite aproximar Nietzsche e Sade. “O sentido do prazer está precisamente na insatisfação da vontade, em que, sem limites e resistência, ela não está ainda suficiente satisfeita. A insatisfação normal de nossos impulsos, por exemplo, da fome, do impulso sexual, do impulso de movimento, não contém em si nada de depressivo; ela atua como estimulante sobre o sentido da vida, assim como fortalece todo ritmo de pequenos estímulos dolorosos. Essa insatisfação, ao invés de aborrecer a vida, é o maior estimulante da vida (Nietzsche)”.
          Percebe-se, assim que, que a teatralidade das Sadomusicistas nos diz claramente que  o prazer não apenas não exclui a experiência da dor e do sofrimento, como também exige sua intensificação. A escalada do prazer é tanto maior quanto mais intenso é o ritmo das pequenas estimulações dolorosas, o que significa que o movimento do prazer descreve uma trajetória infinita de intensificação da dor como sua condição de possibilidade.
          O grupo As Sadomusicistas nos mostra a vida como ela é sem rodeios e camuflagens, atiçando nossos desejos sonoros através das excitações e co-excitações musicais e visuais, pois no jogo combinativo de corpos altissonantes, a força do erotismo artistico eleva nossa sensibilidade auditiva\afetiva\reflexiva\analítica\libidinal à enésima potencia através do riso e dos júbilos. O legal de tudo é que em cada concerto, há um mover de corpos,  um alvoroçar de risos, pois As Sadomusicistas são isso: máquina propulsora de risos reflexivos. Elas desenham de forma cômica muitos problemas do nosso tempo, pois o "caricaturista é o demônio que eleva, que expande tudo o que Deus insinuou querer fazer”. (Henri Bergson – livro O RISO)
Acreditem....mas há quem diga que essa fotografia é uma louvação a arte do exagero...É preciso exagerar para que algumas bestas (sem tesão e sem coração) nao durmam ....


BIBLIOGRAFI

GIACÓIA, Osvaldo Júnior. Labirintos da Alma. Nietzsche e a auto-supressão da moral. Campinas: UNICAMP, 1997.

DELEUZE, Gilles. Sacher-Masoch: O frio e o cruel. Tradução: Júlio Castañon Guimarães. Rio de Janeiro: Zahar, 2009.

DELEUZE, Gilles. Sacher-Masoch: O frio e o cruel. Tradução: Júlio Castañon Guimarães. Rio de Janeiro: Zahar, 2009.


DELEUZE, Gilles; GUATARRI, Felix. Kafka. Por uma literatura menor. Rio de Janeiro: Imago, 1977.



 
BERGSON, Henri. O Riso: Ensaio sobre a significação do cômico. Rio de Janeiro: Zahar, 1983


sexta-feira, 23 de março de 2012

Prisioneiro da Grade de Ferro (Autorretratos)


O Prisioneiro da Grade de Ferro (1/12) 

Ficha Técnica

Estado: Em DVD
Título Original: Prisioneiro da Grade de Ferro
Gênero:
Direção:
Roteiro:
País de Origem: Brasil
Estreia Mundial: 2004
Duração: 124 minutos

Prisioneiro da Grade de Ferro (Auto-retratos) é um filme documentário brasileiro de 2003, dirigido por Paulo Sacramento.
O documentário retrata a ineficácia do sistema carcerário brasileiro, sobretudo sua falha no processo de ressocialização. As lentes de Paulo Sacramento conseguem captar a desobediência a vários princípios constitucionais, principalmente em relação à dignidade do apenado.
Apesar de mostrar assassinos, estupradores, ladrões, entre outros, o filme expõe a maneira - muitas vezes inusitada e criativa - que os presos encontram para (sobre)viver no cárcere, numa tentativa de diminuir o tempo que sempre insiste em correr mais vagarosamente quando se está cerrado dentro das gaiolas de ferro. Por outro lado, o documentário revela as condições sub-humanas a que os apenados estão submetidos no cárcere, confirmando o descaso Estatal que impera no Sistema Penal brasileiro.

O sistema penitenciário brasileiro encarcera 170 mil, dos quais a metade se encontra no Estado de São Paulo. O Carandiru abrigava nos seus dias finais mais de 7 mil almas, e assim, com alguns dados e uma "desimplosação", onde os pavilhões literalmente se reerguem do pó, se inicia O prisioneiro da grade de ferro - auto-retratos, documentário de Paulo Sacramento. A intenção é boa: um curso de vídeo no complexo para ensinar alguns presos a mexer com uma câmera, registrar o áudio. A procura foi grande, mais de 200 inscritos, dos quais sobraram menos de 20 e o que se vê é aquilo que ninguém mais poderia retratar.
Apesar de não termos nenhum santo por ali, mas sim bandidos, ladrões, assassinos, picaretas, mal intencionados de todas as estirpes, ainda assim, é bom lembrar, são tão humanos quanto a gente, e diferentemente do que muitos coronéis e PMs pensam, com capacidade de expor suas angústias, revoltas, mas também demonstrar capacidades artesanais, seja pra fazer uma caravela com um metro de comprimento, ou a "maria loca", a cachaça destilada de arroz ou laranja.
Ali o buraco é mais embaixo, como lembra o sarcástico que fala na triagem diária para os que chegam. Todos sentados, em bancos que parecem de igreja, já de cabeça raspada (e olhando pra baixo, querendo talvez pensar que se trata de um sonho, ou melhor, pesadelo), a famigerada calça bege, camiseta branca. A comida é azeda, o cheiro não é dos melhores, o aperto é visível e vacilão é estocado até a morte. Tinha um com centenas de furos nas costas. Outro com um rombo no pescoço. Geralmente é dívida de droga. Mas todas essas informações que já sabíamos de antemão, que já formam essa imagem desses antros de animalização que vemos hora ou outra quando estoura uma rebelião país afora, não constituem o melhor. Esse aparece na tentativa dos presos de se auto-retratarem, como sugere o subtítulo do documentário.
E aí aparecem os grupos de rap, mas também a roda de samba, o futebol (um dos poucos momentos onde se vê sorrisos é quando o time vencedor comemora o título), os travecos, a hora da faxina dos pavilhões que precede a visita de sábado, a hora da tranca, a "Ave Maria", de Bach, todo fim do dia. Aparecem as mulheres peladas na parede, a comunicação com a moradora do albergue na frente, os ratos (quantos ratos, amiga!), o prédio do Banespa, "símbolo do capitalismo", como se refere um, o metrô que vai e vem, a oficina de bolas, os trabalhos artesanais, que provavelmente muita gente nem sabia possuir, o pastor e o pai de santo, a preparação das dolinhas de maconha, o crack, a "realidade da cadeia", como muitas vezes os detentos se referem.
Sem apologia nem execração prévia de quem está ali, coisa difícil para quem trabalha com isso, Sacramento montou um belo filme, não esquecendo que temos párias, como sempre existiu desde que o homem ainda era macaco, mas muitos infelizmente foram tragados pelas condições subumanas que dominam as nossas periferias.



 

sexta-feira, 16 de março de 2012

DOCUMENTÁRIO: JUSTIÇA , Direção: Maria Augusta Ramos.

(...) A diferença entre o justo e o injusto é muito simples para aqueles que sofrem, mas ela é difícil para aqueles que cometem uma injustiça; o conceito do justo surge exatamente naquele que sofre. Aqueles que sofrem se vingam, por isso é que eles professam a justiça para todos. Pressupõe-se uma força de resistência daqueles que sofrem a injustiça: só há direito igual para forças iguais, portanto enre iguais. [...]
NIETZSCHE, Friedrich.  Escritos sobre Direito. Tradução, apresentação e ntodas de Noéli Correia de Melo Sobrinho. Rio de Janeiro: Editora PUC Rio, Edições Loyola, 2009, Página 69


Justiça, documentário de Maria Augusta Ramos, pousa a câmera onde muitos brasileiros jamais puseram os pés - um Tribunal de Justiça no Rio de Janeiro, acompanhando o cotidiano de alguns personagens. Há os que trabalham ali diariamente (defensores públicos, juízes, promotores) e os que estão de passagem (réus).
A câmera é utilizada como um instrumento que enxerga o teatro social, as estruturas de poder - ou seja, aquilo que, em geral, nos é invisível. O desenho da sala, os corredores do fórum, a disposição das pessoas, o discurso, os códigos, as posturas - todos os detalhes visuais e sonoros ganham relevância. Em geral, nosso olhar é formado pela visão do cinema americano, os "filmes de tribunal". Justiça, sob esse aspecto, é um choque de realidade.Justiça, documentário de Maria Augusta Ramos, pousa a câmera onde muitos brasileiros jamais puseram os pés - um Tribunal de Justiça no Rio de Janeiro, acompanhando o cotidiano de alguns personagens. Há os que trabalham ali diariamente (defensores públicos, juízes, promotores) e os que estão de passagem (réus).
A câmera é utilizada como um instrumento que enxerga o teatro social, as estruturas de poder - ou seja, aquilo que, em geral, nos é invisível. O desenho da sala, os corredores do fórum, a disposição das pessoas, o discurso, os códigos, as posturas - todos os detalhes visuais e sonoros ganham relevância. Em geral, nosso olhar é formado pela visão do cinema americano, os "filmes de tribunal". Justiça, sob esse aspecto, é um choque de realidade.

Assista o documentário completo dividido em partes no YOU TUBE. Parte 1 de 11 partes






JUSTIÇA
Título original:
Duração:
100 minutos (1 hora e 40 minutos)
Gênero:
Documentário
Direção:
Maria Augusta Ramos
Ano:
País de origem:
BRASIL


O documentário Justiça, da cineasta Maria Augusta Ramos, retrata de forma particular, a rotina do Judiciário e do sistema prisional brasileiro, que, através de imagens imperativas, revelam ao telespectador o retrato frio e cruel da realidade carcerária e processual do nosso sistema penal.
Neste universo, são focados aqueles que de algum modo, direta e indiretamente, compõe o arcabouço da Jurisdição do Brasil, mais precisamente, a jurisdição do Rio de Janeiro. Deste modo, os personagens trazidos pelo filme são as pessoas que trabalham diariamente com o poder judiciário, como promotores, defensores públicos, juízes, e aqueles que estão apenas de passagem, como os réus e seus familiares.
Justiça[1] foi lançado em 2004,recebeu o Prêmio de Melhor Filme no Festival Internacional de Documentário – ´Visions du Réel´em Nyon, Suiça, 2004 – e o Prêmio "La Vague d'Or" de Melhor Filme, no Festival Internacional de Cinema Feminino de Bordeaux, na França.
Maria Augusta Ramos[2], que atualmente vive na Holanda, nasceu em Brasília, em 1964, onde se graduou em música pela Universidade de Brasília. Mudou-se para Europa, onde continuou seus estudos no Groupe de Recherche Musicale, em Paris. Logo depois, estudou em Londres na City University. E na Holanda ingressou na The Netherlands Film and Television Academy, especializando-se em direção e edição.
No caminhar da carreira, participou de vários festivais internacionais, chegando a ganhar o prêmio mais importante do cinema holandês.
Leia mais aqui

DOCUMENTÁRIO: JUSTIÇA , Direção: Maria Augusta Ramos.

(...) A diferença entre o justo e o injusto é muito simples para aqueles que sofrem, mas ela é difícil para aqueles que cometem uma injustiça; o conceito do justo surge exatamente naquele que sofre. Aqueles que sofrem se vingam, por isso é que eles professam a justiça para todos. Pressupõe-se uma força de resistência daqueles que sofrem a injustiça: só há direito igual para forças iguais, portanto enre iguais. [...]
NIETZSCHE, Friedrich.  Escritos sobre Direito. Tradução, apresentação e ntodas de Noéli Correia de Melo Sobrinho. Rio de Janeiro: Editora PUC Rio, Edições Loyola, 2009, Página 69

Justiça, documentário de Maria Augusta Ramos, pousa a câmera onde muitos brasileiros jamais puseram os pés - um Tribunal de Justiça no Rio de Janeiro, acompanhando o cotidiano de alguns personagens. Há os que trabalham ali diariamente (defensores públicos, juízes, promotores) e os que estão de passagem (réus).
A câmera é utilizada como um instrumento que enxerga o teatro social, as estruturas de poder - ou seja, aquilo que, em geral, nos é invisível. O desenho da sala, os corredores do fórum, a disposição das pessoas, o discurso, os códigos, as posturas - todos os detalhes visuais e sonoros ganham relevância. Em geral, nosso olhar é formado pela visão do cinema americano, os "filmes de tribunal". Justiça, sob esse aspecto, é um choque de realidade.Justiça, documentário de Maria Augusta Ramos, pousa a câmera onde muitos brasileiros jamais puseram os pés - um Tribunal de Justiça no Rio de Janeiro, acompanhando o cotidiano de alguns personagens. Há os que trabalham ali diariamente (defensores públicos, juízes, promotores) e os que estão de passagem (réus).
A câmera é utilizada como um instrumento que enxerga o teatro social, as estruturas de poder - ou seja, aquilo que, em geral, nos é invisível. O desenho da sala, os corredores do fórum, a disposição das pessoas, o discurso, os códigos, as posturas - todos os detalhes visuais e sonoros ganham relevância. Em geral, nosso olhar é formado pela visão do cinema americano, os "filmes de tribunal". Justiça, sob esse aspecto, é um choque de realidade.


Assista o documentário completo dividido em partes no YOU TUBE. Parte 1 de 11 partes





JUSTIÇA
Título original:
Duração:
100 minutos (1 hora e 40 minutos)
Gênero:
Documentário
Direção:
Maria Augusta Ramos
Ano:
País de origem:
BRASIL


O documentário Justiça, da cineasta Maria Augusta Ramos, retrata de forma particular, a rotina do Judiciário e do sistema prisional brasileiro, que, através de imagens imperativas, revelam ao telespectador o retrato frio e cruel da realidade carcerária e processual do nosso sistema penal.
Neste universo, são focados aqueles que de algum modo, direta e indiretamente, compõe o arcabouço da Jurisdição do Brasil, mais precisamente, a jurisdição do Rio de Janeiro. Deste modo, os personagens trazidos pelo filme são as pessoas que trabalham diariamente com o poder judiciário, como promotores, defensores públicos, juízes, e aqueles que estão apenas de passagem, como os réus e seus familiares.
Justiça[1] foi lançado em 2004,recebeu o Prêmio de Melhor Filme no Festival Internacional de Documentário – ´Visions du Réel´em Nyon, Suiça, 2004 – e o Prêmio "La Vague d'Or" de Melhor Filme, no Festival Internacional de Cinema Feminino de Bordeaux, na França.
Maria Augusta Ramos[2], que atualmente vive na Holanda, nasceu em Brasília, em 1964, onde se graduou em música pela Universidade de Brasília. Mudou-se para Europa, onde continuou seus estudos no Groupe de Recherche Musicale, em Paris. Logo depois, estudou em Londres na City University. E na Holanda ingressou na The Netherlands Film and Television Academy, especializando-se em direção e edição.
No caminhar da carreira, participou de vários festivais internacionais, chegando a ganhar o prêmio mais importante do cinema holandês.
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CAIM E CRISTO como símbolos do MASOQUISMO. Por Gilles Deleuze.



Sacher-Masoch: o frio e o cruel

SINOPSE
“O destino de Masoch é duplamente injusto”, resume Deleuze, um dos mais importantes pensadores contemporâneos. Sacher-Masoch, que inspirou a formulação do neologismo “masoquismo”, teve ao longo dos anos sua obra praticamente esquecida e associada com os escritos do Marquês de Sade. O filósofo realiza uma brilhante leitura comparativa entre as obras do austríaco e de Sade, atento ao valor literário e ao viés psicanalítico. Um livro que ilustra bem a ideia deleuziana de que o artista ou o escritor é um pensador tanto quanto o filósofo ou o cientista.

“Para Deleuze, a literatura é uma atividade clínica, e o grande artista é mais um médico do que um doente.” Roberto Machado, professor de filosofia da UFRJ.





"Os dois grandes personagens masculinos na obra de Masoch são Caim e Cristo. O signo dos dois é o mesmo, o signo pelo qual Caim estava marcado já era o sinal da cruz, que se escrevia “x” ou “+”. Ao colocar grande parte da sua obra sob o signo de Caim, Masoch implica muitas coisas: o crime, sempre presente na natureza e na história; a imensidão dos sofrimentos (“minha punição é grande demais para ser suportada”). Mas Caim é também o agricultor, o preferido da mãe. Eva saudou seu nascimento com gritos de alegria, mas não teve alegria por Abel, o pastor, colocado do lado do pai. O preferido da mãe chegou ao crime para romper a aliança do pai com o outro filho: ele matou a semelhança do pai e tornou Eva a deusa-mãe. (Hermann Hesse escreveu um curioso romance, Demian, onde se misturam os temas nietzschianos e masoquistas: aparece a identificação da deusa-mãe com Eva, gigante que tem na testa a marca de Caim.) Não é apenas pelos tormentos que sofreu que Caim é tão querido por Masoch, mas também pelo crime cometido. Seu crime não apresenta símbolo sadomasoquista algum. Ele pertence inteiramente ao mundo masoquista, pelo projeto que sustenta, a fidelidade ao mundo materno que o inspira, a eleição da mãe oral e a exclusão do pai, o humor e a provocação. Seu “legado” é um “signo”. Que Caim seja punido pelo Pai marca a volta ofensiva deste último, sua volta alucinatória. Fim do primeiro episódio. Segundo episódio: Cristo. A semelhança do pai é novamente abolida (“Por que me abandonastes¿”). E é a Mãe que põe o Filho na cruz. É a virgem que, pessoalmente, põe Cristo na cruz – contribuição masoquista para a fantasia mariana, versão masoquista de “Deus morreu”. E colocando-o na cruz, num signo que o liga ao filho de Eva, ela dá prosseguimento à tarefa da deusa-mãe, da grande Mãe-oral: assegura ao filho uma ressurreição como segundo nascimento partenogenético. Não é tanto o Filho que morre, mas sim Deus Pai, a semelhança do pai no filho. A cruz representa aqui a imagem materna de morte, o espelho onde o eu narcísico de Cristo (= Caim) apercebe-se do eu ideal (Cristo ressuscitado). (...)
A mãe de Deus coloca seu filho na cruz precisamente para que ele se torne seu filho e goze de um nascimento que se deve apenas a ela. (...) Tornar-se um homem significa então renascer da mulher apenas, ser objeto de um segundo nascimento. (...)
O masoquista atua simultaneamente em três processos de denegação: um que magnífica a mãe, emprestando-lhe o falo próprio para fazê-lo renascer; outro que exclui o pai como não tendo função alguma nesse segundo nascimento; e outro ainda que incide propriamente no prazer sexual, interrompendo-o e abolindo a genitalidade para transformá-lo em prazer de renascer. De Caim a Cristo, Masoch exprime o fim último de toda a sua obra: Cristo não como filho de Deus, mas como o novo Homem, isto é, com a semelhança do pai abolida, “o Homem na cruz, sem amor sexual, sem propriedade, sem pátria, sem disputas, sem trabalho...”


Extraído
(DELEUZE, Gilles. SACHER-MASOCH: o frio e o cruel. Tradução: Jorge Bastos. Revisão Técnica: Roberto Machado. Rio de Janeiro: Zahar, 2009, p. 95-99)

quinta-feira, 15 de março de 2012

Proust e o jogo com a ambiguidade do acaso


Este texto é fruto de anotações durante as aulas no curso, “A interpretação deleuzeana de Proust” ministrada pelo Prof. Dr. Roberto Machado no IFCS. Disciplina da Pós Graduação em Filosofia, UFRJ, 1º Semestre de 2009.
Proust e o jogo com a ambiguidade do acaso

     Quando tudo nos parece perdido é que nos sobrevém o aviso dos quais, não poderemos salvar. Ocorre-se um milagre quando tudo parece perdido (Beckett). Há em Proust uma crítica à idéia de acaso, entretanto, o acaso dirige os personagens, governa a vida deles. Por detrás da descoberta está o acaso, no entanto, nenhuma obra é fruto do acaso. O acaso é a condição da descoberta da vocação.

     A obra de Proust está em continuidade com o romance de formação. Blanchot em “O Intinerário de Proust” fala sobre a idéia de livro porvir. Blanchot foi um pensador que exerceu influência sobre Foucault, Deleuze e Derrida. O tempo redescoberto vai num percurso e depois aparece uma ruptura. O papel do acaso representa a descoberta no “Em Busca do Tempo Perdido” proustiano. A descoberta vem por acaso.

     É a memória involuntária que traz os dias esquecidos; a memória involuntária é um encontro inesperado que restitui o passado. Deleuze defende que “Em Busca do Tempo Perdido” é um aprendizado e não representa uma aprendizagem artística se não passasse pelos signos. Deleuze fala sobre as experiências sensíveis e sobre os signos sensíveis que nos dão uma eternidade junto com os signos artísticos. Proust distingue dois tipos de memória: memória voluntária e memória involuntária. Ele dá primazia à memória involuntária inconsciente, que ele chama também de memória da inteligência. A memória voluntária só nos dá faces do passado, portanto, ela não dá verdadeiramente o passado. Ela não conserva o passado, não transmite nenhuma verdade, só transmite faces do passado. Nesse contexto de valorização da memória deleuziana-proustiana, é relevante ressaltar que na história da filosofia há uma supremacia da visão.

     Só se pensa depois de temos sido tocados; só reagimos após temos sido tocados pelo acaso (memória involuntária). A memória involuntária é uma deflagração total, imediata e deliciosa. Beckett disse que a memória involuntária é um mágico rebelde que não se deixa importunar.     De súbito a lembrança aparece. Esta frase está relacionada à memória involuntária e ao prazer irrefletido que diz respeito ao afeto, aos sentidos. O acaso produz a reviravolta.

     Imersos nas forças do acaso, Proust é afetado por um rebuliço que desestrutura o cânone da inteligência. Em termos nietzschianos, eu poderia até pensar que Proust aderiu à “morte” da inteligência. Cada dia eu acredito menos na inteligência disse Proust. A inteligência vem sempre depois para interpretar os signos ressaltou Deleuze. Nossa inteligência deve ser utilizada para desvendar alguma relíquia sígnica nas cavernas sígnicas. Nosso passado está oculto atrás de algum objeto material. Deleuze faz correlação entre os signos e os sentidos e estabelece que o signo não é o objeto. Ele diz que “Em Busca do Tempo Perdido” é uma busca pelo desvendamento da verdade.

     As impressões sensíveis são variadas diante dos fatos e sentimentos, aliás, Beckett assinala que o calendário dos fatos não coincide com o calendário dos sentimentos. Beckett fala de prazer, alegria, felicidade, de entusiasmo, plenitude, esplendor e de certeza. Em Beckett há flutuações terminológicas; ele fala do atordoamento, instante de êxtase, instante profundo; fala do fulgor intolerável. Tudo isso acontece independente do conhecimento das causas. Você pode ter uma impressão, mas nunca pode saber o sentido daquela impressão. O juízo estético para Kant não dá conhecimento, mas para Schopenhauer, Nietzsche e Proust é o melhor conhecimento. O romantismo foi o primeiro a defender a superioridade da arte sobre o conhecimento racional.

      Toda impressão sensível traz uma exigência de conhecimento e dentro dessa exigência há uma intensidade, e essa intensidade nos obriga a fazer isso. Obrigação diz respeito ao hábito, aliás, somos ganhos pelo hábito, no entanto, o hábito destrói a possibilidade de descoberta. Beckett faz uma crítica ao hábito. Para desvendar o que está atrás das cortinas, é preciso escapar do hábito. O que interessa a Proust é o que está por traz, e dessa forma, podemos ver a ambição desveladora proustiana sob vários pensadores. Proust aspira conhecer o virtual bergsoniano; almeja conhecer o fenômeno kantiano; deseja conhecer a representação schopenhauriana. Em Proust há sempre algo oculto, e é isso o que interessa. Para Deleuze, é preciso ir além das imagens, porém, isso exige esforço. Ele defende o intelecto, pois não se pode reduzir tudo ao acaso.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Nietzsche para Estressados, livro de Allan Percy



Sinopse

 
Nietzsche para Estressados: 99 Doses de Filosofia para Despertar a Mente e Combater as Preocupações é um manual inteligente e estimulante que reúne 99 máximas do gênio alemão e sua aplicação a várias situações do dia a dia. A sabedoria de Nietzsche é de grande utilidade na busca de uma solução para uma série de problemas, tanto na vida pessoal quanto na profissional. Este breve curso de filosofia cotidiana foi criado por Allan Percy para nos auxiliar nos momentos em que precisamos tomar decisões, recuperar o ânimo, encontrar o caminho certo e relativizar a importância dos fatos da vida. É indicado para quem procura inspiração no pensamento filosófico mais influente da era moderna para combater as angústias e os medos dos dias de hoje. Cada capítulo é iniciado por um aforismo do mestre, seguido de uma interpretação atual. Muitas vezes, sua sabedoria é associada às ideias de outros autores renomados, enriquecendo ainda mais o assunto.

O legado de Nietzsche induz à reflexão e oferece uma forma mais inovadora de superar as dificuldades. Conheça algumas de suas frases marcantes:

- O que não nos mata nos fortalece
- O destino dos seres humanos é feito de momentos felizes e não de épocas felizes
- Quem tem uma razão de viver é capaz de suportar qualquer coisa
- O reino dos céus é uma condição do coração e não algo que cai na terra ou que surge depois da morte
- Não há razão para buscar o sofrimento, mas, se ele surgir em sua vida, não tenha medo: encare-o de frente e com a cabeça erguida
- Os maiores êxitos não são os que fazem mais ruído e sim nossas horas mais silenciosas