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quinta-feira, 15 de março de 2012

Proust e as impressões sensíveis


Observação: O curso mencionado no cartaz, já foi realizado (em 2010 eu acho).
Este texto é fruto de anotações durante as aulas no curso, “A interpretação deleuzeana de Proust” ministrada pelo Prof. Dr. Roberto Machado no IFCS. Disciplina da Pós Graduação em Filosofia, UFRJ, 1º Semestre de 2009.
     As impressões sensíveis seria uma das condições de possibilidade de uma vocação. O narrador descobre sua vocação e o que é necessário fazer para gerar um novo tipo de literatura. A impressão sensível envolve reflexão a partir da música e da pintura.

    Para entender a função dessas impressões sensíveis precisamos falar sobre o aspecto analítico que se funcionam como tijolos que relacionados, chegamos a uma determinada tese. Já o aspecto sintético visa relacionar as coisas. A impressão sensível serve como trampolim para Proust chegar à literatura. O narrador é um personal ficcional. Para auxiliar a nossa compreensão da obra proustiana, é importante recorrer à analogia de estrutura.

     A obra de Proust tem relação com o tempo. Autores como Bekett, Bergson e Deleuze nos dão contribuições relevantes para abordarmos os textos proustianos. Beckett fala da simultaneidade dos sucessivos, que diz respeito a um paradoxo do tempo, dos movimentos do tempo. Deleuze utiliza expressões bergsonianas e fala da coexistência virtual que Bergson contrapõe à sucessão real. Deleuze assinala que o passado permeia o presente porque uma sensação antiga se identifica com a sensação do presente. Proust dirá que realidade é relação e a relação é a mais importante do que os termos (Deleuze). Introduzir o passado no presente é ter uma experiência temporal. “Em Busca do Tempo Perdido” é uma obra que busca escapar do tempo.   

     A experiência sensível nos dá fragmentos da eternidade. É bom lembrar que Proust não é um pensador metafísico de outro mundo. Em última análise, Proust não é platônico, mas ele é muito mais schopenhaueriano do que platônico. Proust foi profundamente marcado por Nietzsche e pela morte de Deus, morte do modelo. Proust é um pensador do tempo. A experiência do tempo em Proust é interessante porque essa experiência suprime a experiência da ação, do fazer, da vida pragmática, do tempo dos relógios. Esse instante livre da ordem do tempo é o instante fora da ordem irreversível. A morte do tempo é a morte do que há no tempo, por isso, assumir integralmente o instante é eternizar o instante (Nietzsche). Proust defende que somente a arte dá essa intensidade do tempo, pois ela imobiliza um pouco de tempo em estado puro. Ao falar desse jeito, ela tinha a intenção de contrapor tempo puro e tempo empírico.

      Apesar de Proust ser mais nietzschiano do que platônico, não podemos esquecer que a história da filosofia consiste em pé de páginas da filosofia de Platão. Outra coisa que não podemos esquecer é que a memória involuntária é capaz de desvelar a verdade em sua essência. O ser essencial não está no passado, nem no presente, mas está na relação. Interpretar é excluir, é privilegiar (Deleuze).

     Nós temos um ser aparente, um ser fenomênico, de representação e temor que se revela. Nosso eu vive morto na vida social; nós vivemos mortos num mundo de mortos; o eu superficial é o eu social e quando se entra numa reunião social, o eu morre. O social para Proust é o mundano, por isso, ele defende a solidão criadora porque o eu profundo é o verdadeiro e consiste no eu interior. O eu profundo dá-nos a possibilidade de termos acesso a expressão sensível que é efêmera, devido durar alguns segundos privilegiados.

Proust e a Música (Baseado no livro “Proust musicien” de Jean-Jacques Nattiez)







Este texto é fruto de anotações durante as aulas no curso, “A interpretação deleuzeana de Proust” ministrada pelo Prof. Dr. Roberto Machado no IFCS. Disciplina da Pós Graduação em Filosofia, UFRJ, 1º Semestre de 2009.

Proust e a Música (Baseado no livro “Proust musicien” de Jean-Jacques Nattiez)

     Proust gosta de dar pinceladas nos temas; o tema aparece, some e reaparece. Nessas pinceladas, ele passeia pela música, cujo, a primeira execução tem o nome de arquétipa; é a primeira vez que Swann ouve uma sonata. Outra execução ocorre na casa dos Verdurin; o terceiro momento é a sonata tocada ao piano por Odette para Swann; o quarto momento é a sonata tocada ao piano na casa dos Verdurin; a quinta vez é a sonata ao piano e violino na casa de Euverte.

     Proust não se interessa muito pelos aspectos teóricos da música, pois não está interessado em criar conceitos sobre a música. Proust está preocupado em como o sentir a música; como é que a música é sentida afetivamente? A música é apresentada de forma romanesca criando cenas enquanto a música é tocada. Apresenta as idéias e sensações de dois personagens: Swann e o Narrador. Proust mostra as mudanças que eles passam na sua relação com a música. Eles mudam de escuta na relação com a música e aparece evidente que haverá um aprendizado.

     A música é a condição de possibilidade para a literatura, sendo que, essa idéia tem relação com Nietzsche. Proust está influenciado por Wagner e Schopenhauer. É preciso levar em consideração as passagens em que Proust fala de música; é preciso tratá-las na ordem porque há mudança de escuta entre o narrador e Swann. Como Swann pensa e sente a música? Começa quando Swann ouve parte de um arranjo para piano; essa parte é o Andante. A relação parte e todo é fundamental na estética de Proust. Essa Sonata é em fá sustenido maior e ele ouve na casa dos Verdurin.

     Proust critica a escuta burguesa porque eles, embora patrocinassem os artistas, eles não entendiam nada de escuta. Proust critica a incapacidade burguesa de captar os detalhes que fazem a diferença numa apreciação musical. Proust fala da pequena frase, além disso, ele foi capaz de assimilar a materialidade dos sons, isto é, a qualidade material dos sons tirados pelos instrumentos. Proust foi capaz de assimilar a música pura.

     A gente não entende nada porque falta a memória. A música é uma arte temporal, e a memória é capaz de relacionar as partes com os movimentos. A memória é como um operário que trabalha para estabelecer fundações duradouras. Proust descrevia Swan a partir de Debussy. O musicólogo canadense Jean-Jacques Nattiez defende que existem três compositores que estão por detrás da Sonata de Vanteuil são: Debussy, Wagner e Beethoven.

      Proust valoriza os fragmentos sonoros, e isso, remete a Swann que ao detectar esse trecho musical ele vai, em busca de um amor desconhecido. Proust valoriza a arte que se relaciona com o amor. Swann é o amoroso, pois para ele, viver é amar. Proust adorava Baudelaire, inclusive, Proust declarou-o como sendo o maior poeta do século XIX, já que Proust ambicionava ser o melhor poeta do século XX. Baudelaire criava passante e por incrível que pareça, a famosa canção “Garota de Ipanema” é uma passante de Baudelaire cujo, versos diziam: “fugitiva beleza, cujo, o olhar me faz renascer; imagem de uma beleza nova que me dá uma sensibilidade”. Vinícius de Moraes, como era literato, acabou “roubando” algumas idéias baudelairianas.

     Swann renasceu, pegou fogo quando ele ouviu aquele som. Caso semelhante ocorreu com o Zaratustra de Nietzsche que era cinza e virou fogo. Marcel Proust fala da música como realidade invisível, e essa realidade invisível é a realidade espiritual que se constitui a realidade essencial da música. Swann é tocado por essa música como sendo essência, mas ele nunca deu conta do absoluto porque ouvia racionalmente. Swann vislumbra na música um novo mundo; fala da música como sendo um mundo da essência e vislumbra uma essência superior, porém, remete ao amor.

     Em Proust há a personificação feminina nas pequenas frases sendo que a música é o hino nacional do seu amor. Em Proust, o amor está vinculado ao ciúme; o ciúme é um tema importante porque o Amor de Swann corresponde ao Ciúme de Swann. Vinicius de Moraes em uma de suas canções escreveu que o ciúme é o perfume do amor. O poetinha brasileiro era proustiano, pois segundo Proust, “amamos para ter ciúmes”.

     Proust viu a plenitude na arte, no prazer da escuta des-racionalizada, aliás, a função da arte é dar prazer (postulado estético desde Aristóteles). O interessante é que em Swann, a música aparece como realidade acima das coisas concretas que ele não sabe interpretar. Porque essa incapacidade? Simplesmente porque ele confundiu o signo com objeto, pois nós amamos os signos, então, diante dessas circunstâncias, ele transfere para Odette a pequena frase. Swann percebeu que a pequena frase tem o poder de atingir o mundo diverso.

     O artista é aquele que tem as faculdades capazes de dar conta das essências. O artista conta com o apoio de alguns pensadores como Schopenhauer e Bergson que desvalorizaram a razão em nome da intuição. Pela intuição, o artista pode ir além da aparência e ter um caso de amor com a essência. Nos braços da intuição há a força visionária que impulsiona o artista para o além. Grandes cineastas do cinema moderno embarcaram nessa onda e criaram um cinema visionário que foi capaz de dizer o indizível, de ver o invisível e de ouvir o inaudível. Deleuze aplaudiu e defendeu com unhas e dentes esses visionários e desbravadores da arte.

Bibliografia
NATTIEZ, Jean-Jacques. Proust Musicien. Paris: Christian Bourgois Editeur, 1983

Leia também o texto PROUST E A CONCEPÇÃO DE ARTISTA.
http://filmesdejoe.blogspot.com/2012/03/proust-e-concepcao-de-artista.html

Proust e a Música (Baseado no livro “Proust musicien” de Jean-Jacques Nattiez)






Este texto é fruto de anotações durante as aulas no curso, “A interpretação deleuzeana de Proust” ministrada pelo Prof. Dr. Roberto Machado no IFCS. Disciplina da Pós Graduação em Filosofia, UFRJ, 1º Semestre de 2009.

Proust e a Música (Baseado no livro “Proust musicien” de Jean-Jacques Nattiez)

     Proust gosta de dar pinceladas nos temas; o tema aparece, some e reaparece. Nessas pinceladas, ele passeia pela música, cujo, a primeira execução tem o nome de arquétipa; é a primeira vez que Swann ouve uma sonata. Outra execução ocorre na casa dos Verdurin; o terceiro momento é a sonata tocada ao piano por Odette para Swann; o quarto momento é a sonata tocada ao piano na casa dos Verdurin; a quinta vez é a sonata ao piano e violino na casa de Euverte.

     Proust não se interessa muito pelos aspectos teóricos da música, pois não está interessado em criar conceitos sobre a música. Proust está preocupado em como o sentir a música; como é que a música é sentida afetivamente? A música é apresentada de forma romanesca criando cenas enquanto a música é tocada. Apresenta as idéias e sensações de dois personagens: Swann e o Narrador. Proust mostra as mudanças que eles passam na sua relação com a música. Eles mudam de escuta na relação com a música e aparece evidente que haverá um aprendizado.

     A música é a condição de possibilidade para a literatura, sendo que, essa idéia tem relação com Nietzsche. Proust está influenciado por Wagner e Schopenhauer. É preciso levar em consideração as passagens em que Proust fala de música; é preciso tratá-las na ordem porque há mudança de escuta entre o narrador e Swann. Como Swann pensa e sente a música? Começa quando Swann ouve parte de um arranjo para piano; essa parte é o Andante. A relação parte e todo é fundamental na estética de Proust. Essa Sonata é em fá sustenido maior e ele ouve na casa dos Verdurin.

     Proust critica a escuta burguesa porque eles, embora patrocinassem os artistas, eles não entendiam nada de escuta. Proust critica a incapacidade burguesa de captar os detalhes que fazem a diferença numa apreciação musical. Proust fala da pequena frase, além disso, ele foi capaz de assimilar a materialidade dos sons, isto é, a qualidade material dos sons tirados pelos instrumentos. Proust foi capaz de assimilar a música pura.

     A gente não entende nada porque falta a memória. A música é uma arte temporal, e a memória é capaz de relacionar as partes com os movimentos. A memória é como um operário que trabalha para estabelecer fundações duradouras. Proust descrevia Swan a partir de Debussy. O musicólogo canadense Jean-Jacques Nattiez defende que existem três compositores que estão por detrás da Sonata de Vanteuil são: Debussy, Wagner e Beethoven.

      Proust valoriza os fragmentos sonoros, e isso, remete a Swann que ao detectar esse trecho musical ele vai, em busca de um amor desconhecido. Proust valoriza a arte que se relaciona com o amor. Swann é o amoroso, pois para ele, viver é amar. Proust adorava Baudelaire, inclusive, Proust declarou-o como sendo o maior poeta do século XIX, já que Proust ambicionava ser o melhor poeta do século XX. Baudelaire criava passante e por incrível que pareça, a famosa canção “Garota de Ipanema” é uma passante de Baudelaire cujo, versos diziam: “fugitiva beleza, cujo, o olhar me faz renascer; imagem de uma beleza nova que me dá uma sensibilidade”. Vinícius de Moraes, como era literato, acabou “roubando” algumas idéias baudelairianas.

     Swann renasceu, pegou fogo quando ele ouviu aquele som. Caso semelhante ocorreu com o Zaratustra de Nietzsche que era cinza e virou fogo. Marcel Proust fala da música como realidade invisível, e essa realidade invisível é a realidade espiritual que se constitui a realidade essencial da música. Swann é tocado por essa música como sendo essência, mas ele nunca deu conta do absoluto porque ouvia racionalmente. Swann vislumbra na música um novo mundo; fala da música como sendo um mundo da essência e vislumbra uma essência superior, porém, remete ao amor.

     Em Proust há a personificação feminina nas pequenas frases sendo que a música é o hino nacional do seu amor. Em Proust, o amor está vinculado ao ciúme; o ciúme é um tema importante porque o Amor de Swann corresponde ao Ciúme de Swann. Vinicius de Moraes em uma de suas canções escreveu que o ciúme é o perfume do amor. O poetinha brasileiro era proustiano, pois segundo Proust, “amamos para ter ciúmes”.

     Proust viu a plenitude na arte, no prazer da escuta des-racionalizada, aliás, a função da arte é dar prazer (postulado estético desde Aristóteles). O interessante é que em Swann, a música aparece como realidade acima das coisas concretas que ele não sabe interpretar. Porque essa incapacidade? Simplesmente porque ele confundiu o signo com objeto, pois nós amamos os signos, então, diante dessas circunstâncias, ele transfere para Odette a pequena frase. Swann percebeu que a pequena frase tem o poder de atingir o mundo diverso.

     O artista é aquele que tem as faculdades capazes de dar conta das essências. O artista conta com o apoio de alguns pensadores como Schopenhauer e Bergson que desvalorizaram a razão em nome da intuição. Pela intuição, o artista pode ir além da aparência e ter um caso de amor com a essência. Nos braços da intuição há a força visionária que impulsiona o artista para o além. Grandes cineastas do cinema moderno embarcaram nessa onda e criaram um cinema visionário que foi capaz de dizer o indizível, de ver o invisível e de ouvir o inaudível. Deleuze aplaudiu e defendeu com unhas e dentes esses visionários e desbravadores da arte.

Leia também o texto PROUST E A CONCEPÇÃO DE ARTISTA.
http://filmesdejoe.blogspot.com/2012/03/proust-e-concepcao-de-artista.html

Proust e a concepção de artista



Este texto é fruto de anotações durante as aulas no curso, “A interpretação deleuzeana de Proust” ministrada pelo Prof. Dr. Roberto Machado no IFCS. Disciplina da Pós Graduação em Filosofia, UFRJ, 1º Semestre de 2009.

Proust e a concepção de artista

     O tema da música em Proust está focalizado no personagem Swann que remete a música ao amor, entretanto, é bom notarmos que existe diferença entre a percepção musical de Swann e a percepção musical do narrador. Na primeira vez o que se percebe é o menos importante, o menos precioso. Proust enfatiza que o novo só se descobre por último.

     Proust aposta no progresso da arte porque defende que só a posteridade da obra permite que com o tempo, essa obra seja aprendida. Ele vai relacionar Vanteuil com Wagner ao fazer em “A Prisioneira” uma reflexão sobre Tristão e Isolda. Ele sinaliza que a música é condição de possibilidade da criação artística. Como expressar artisticamente as impressões? Esse é o grande Leitmotiv proustiano. Para isso, é relevante pensar na sensação da individualidade, da singularidade, da novidade e da variedade. O artista é sensível por natureza e faz sensível ao sofrimento; só o artista comunica a variedade de seus sentimentos.

     Proustianamente e deleuzianamente falando, é possível falar da essência artística como diferença, diferença inclusive de cunho estilístico. Jean Milly escreveu um livro denominado “Estilo de Proust” onde ele fala que estilo tem a ver mais com visão do que com técnica. Há diferentes estilos, porém, o estilo não é uma questão de técnica, mas de visão. Por exemplo, a música de Wagner é composta de várias músicas. Beethoven fez um septeto Opus 20; Saint-Saëns, Ravel e Stravinsky também. O septeto tem relação com a imagem simbólica da totalidade que é o numero sete. O septeto é uma obra prima mais completa em que existem elementos diferentes, porém, se combinam.

     O fundamental para Proust é produzir alegria, aliás, a função da arte é produzir alegria. Ele está interessado na essência ou natureza da arte como também na força do artista. O que é o artista para Proust? Cada artista é um cidadão de uma pátria desconhecida porque o artista vive exilado de sua pátria. O artista delira de júbilo quando canta em conformidade com essa pátria. Deleuze ressalta que só a arte permite conhecer a diferença como absoluta, isto é, a diferença interna; só ela permite conhecer os elementos constitutivos da alma. Ela permite viajar, pois viajar é ter novos olhos mesmo que seja para as mesmas paisagens; viajar é ter o novo. Deleuze valoriza esse tipo de viagem porque ela proporciona a maior intensidade. O grande criador é uma estrela que ilumina, pois ele voa de estrela em estrela, inclusive, Nietzsche fala da amizade estelar. Nietzsche e Wagner eram duas estrelas que juntas anulavam a luz uma da outra.

     A música proporciona mais porque ela é mais do que uma alegria nervosa de um lindo dia ou de uma noite de ontem. Ela é uma arte capaz de dá conta da representação, da linguagem imediata da coisa; ela dá conta do âmago do mundo; dá conta da vontade schopenhaueriana. A arte é capaz de revelar a certeza da realidade; ela é apta a desvendar a certeza da verdade revelada.

Literatura e Realidade em Proust


 
Este texto é fruto de anotações durante as aulas no curso, “A interpretação deleuzeana de Proust” ministrada pelo Prof. Dr. Roberto Machado no IFCS. Disciplina da Pós Graduação em Filosofia, UFRJ, 1º Semestre de 2009.
Literatura e Realidade em Proust

     A música denuncia a falsidade da literatura. Há em Schopenhauer uma hierarquia das artes, no entanto, em Hegel há uma superioridade da poesia. Proust defende que a música é condição de possibilidade da literatura e Foucault fala sobre a literatura ao infinito que só foi possível graças ao desaparecimento do modelo absoluto: Deus. Sem a idéia do modelo, há possibilidade de criação do original, aliás, na modernidade é bom o que é original.

     A mentira da literatura está na literatura realista que observa e descreve porque ela é superficial. Há uma distinção metafísica entre aparência e essência, dessa forma, o escritor do original, precisa estar disposto a desentranhar o que esses fatos encerram. O conceito de essência é muito importante em “Em Busca do Tempo Perdido”.

     Kant limitou a filosofia porque ele fez uma filosofia dos limites no sentido de que estabeleceu os limites do conhecimento, esclarecendo, com sua crítica da metafísica, que o homem só pode conhecer o fenômeno, o que é espaço-temporal, e não a coisa em si.  Ao criar uma linguagem, o escritor vê e ouve os sons mais profundos, diz Deleuze. Ele insiste que o criador deve ambicionar levar a linguagem ao máximo do linear de intensidade para que um novo tipo de escuta seja possível. É na profundidade que está a verdadeira realidade, e o artista traduz a realidade essencial. Para Proust, profundidade significa interioridade e a verdadeira realidade é o interior. Podemos conhecer a coisa em si? Essa é a grande questão de Schopenhauer. O pensamento moderno diz que a essência está sempre no porvir.

     A arte é um tipo de conhecimento superior e podemos pensar nessa superioridade se dando no nível mental e espiritual. Leonardo Da Vinci assinalava que a pintura é coisa mental e que ao invés do objeto tudo está no espírito. Isso nos remete a Schopenhauer que dizia que a beleza não está no objeto. Proust já é mais intimista e realça que a realidade não está na distância, mas é algo que se está intimamente ligado devido possuir afetividade com a realidade. A música pode ser pensada como linguagem do corpo, se caracterizando como um conhecimento não representativo.

     Proust é o resultado da morte de Deus e está situado na modernidade e antes da modernidade, valorizava-se o passado nos quais as coisas guardavam a essência. Em Proust a realidade deve ser pensada como relação, isto é, relação simultânea entre sensações e lembranças.

Proust e a simultaneidade dos tempos


Este texto é fruto das aulas assistidas durante o curso “A interpretação deleuzeana de Proust” ministrada pelo Prof. Dr. Roberto Machado no IFCS. Disciplina da Pós Graduação em Filosofia, UFRJ, 1º Semestre de 2009

Proust e a simultaneidade dos tempos

     Unir duas frases diferentes através de uma metáfora essa é a proposta proustiana. Isso é possível unindo dois termos de qualidade comum através de uma metáfora. Proust pensa a metáfora como metamorfose, sendo que a metáfora critica o realismo porque para ele, o realismo é incapaz de dar conta da realidade; no realismo há a impossibilidade de dar conta do tempo.

     A impressão sensível está ligada à metáfora e na metáfora há o privilégio da relação, relações entre sensações e lendas. O que chamamos de realidade é a relação entre sensações e lembranças que nos envolvem simultaneamente. A sucessão é empírica, no entanto, a simultaneidade do tempo passado, presente e futuro, não é. Bergson fala do tempo puro que Proust valoriza devido à possibilidade de haver dois tempos diferentes atuando simultaneamente, dando a idéia de co-eternidade, com a existência do passado, presente e futuro. Espinosa adquiriu a eternidade no tempo e Deleuze aproveitou bem isso.

     Como expressar as impressões num tempo acronológico? Escapar do tempo cronológico para o simultâneo é a ambição proustiana porque o tempo puro é interessante para o escritor porque escrever é relacionar aspectos da realidade. Proust quer escapar das contingências do tempo, do tempo empírico. A música é uma arte capaz de dialogar com o tempo puro, pois ela traz a dimensão da profundidade, escapando da aparência, da representação, do fenômeno. Para Proust adora a idéia de metáfora como metamorfose aliada à idéia de metáfora como relação, até porque, o tempo é uma figura de linguagem. A metáfora abarca a concepção de substituição, de relação de semelhanças de tradução, que implica em transportar de um lado para o outro. Em termos aristotélicos, fazer bem as metáforas é fazer as relações de semelhança. Aristóteles em seu livro “Poética” fala de metáfora como idéia de transposição e analogia.

     Na metáfora é importante a relação entre um lugar e um produto, sendo que, ela se constitui numa noção muito importante para Proust. Ele escreveu um artigo sobre Flaubert chamado “O Eterno e o Perfeito” no qual, ele diz crer que só a metáfora pode dar ao estilo uma espécie de eternidade. Proust ainda fez uma crítica à Flaubert dizendo que ele jamais construiu uma bela metáfora. Proust defende a literatura como criação de metáfora, aliás, existe um livro chamado “Vida como Literatura” de um filósofo americano.  Metáfora é relação e em Proust há a relação entre a literatura e a sua vida.

     Deleuze fala que o signo sensível é o signo da vida e que a natureza é dada pela impressão sensível. Winckelmann defende que os gregos viveram a natureza com mais intensidade e que Aristóteles era alguém que insistia na natureza. O artista chega aonde à natureza foi incapaz de chegar; ele vai além da natureza. O grande escritor é o inesgotável, pois ele diz o indizível e como novo escritor, ele faz relações diferentes estabelecendo as relações, que a gente não gosta e que a gente não entende, porque relaciona os mesmos objetos de maneira diferentes. Proust é um teórico, escritor do novo e está relacionado à idéia de gênio que dá a luz ao novo, ao que é diferente.

     A vida é relação e a arte é relação e geralmente é relação entre tempos diferentes. Deleuze fala de homologia estrutural que trabalha com semelhança de estruturas entre a memória involuntária e a metáfora literária. O projeto literário é voluntário, no entanto, a memória involuntária é obra do acaso. A verdadeira arte é metafórica e as metáforas são reminiscências da arte garante Deleuze. A literatura é expressão, tradução de um estímulo que relaciona. Há um teórico húngaro ligado à escola de Frankfurt que compara Walter Benjamin com Marcel Proust ao dizer que na metáfora duas coisas distintas perdem a sua identidade consigo devido uma analogia feita pelo poeta. A metáfora deve elevar o homem acima da temporalidade, acima do tempo sucessivo, tempo empírico. A metáfora deve descobrir o tempo puro, inclusive, Proust é um pensador da imanência e não da transcendência.