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quinta-feira, 19 de abril de 2012

A função do artista através da metáfora da árvore (por Paul Klee-pintor alemão do séc XX)


Por Paul Klee (pintor alemão do séc XX)        

Deixem-me usar uma metáfora, a metáfora da árvore. Pelo que podemos supor, o artista dedicou toda a sua atenção a esse mundo multiforme, e de alguma maneira encontrou seu caminho nele. Com toda calma. Ele tem um senso de orientação tão bom que é capaz de organizar a passagem fugidia dos fenômenos e das experiências. Essa orientação nas coisas da natureza e da vida, essa organização ramificada e diversificada, é o que eu gostaria de comparar à raiz da árvore.
          Dessa raiz afluem para o artista as seivas vitais que vão passar atravé dele e através dos seus olhos.
         Portanto ele ocupa o lugar do tronco.
        Pressionado e movido pelo poder daquele fluxo, ele encaminha o que foi vislumbrado para a obra.
        Assim como a copa da árvore se desdobra visivelmente para todos os lados, no tempo e no espaço, a mesma coisa acontece no caso da obra de arte.
          Ninguém pensaria em exigir da árvore que produzisse uma copa exatamente igual à raiz. Todos entendem que não pode existir uma relação de espelhamento entre a parte de baixo e a de cima. É claro que as diferentes funções, em diferentes domínios elementares, têm que produzir divergências vitais.
         Mas acontece que, no caso do artista, muitas vezes pretendem proibir justamente essas divergências em relação ao seu ponto de partida, contrariando uma necessidade plástica. Chegam ao cúmulo de acusá-lo de ser um incapaz e um falsificador intencional.
         Contudo, ocupando o lugar que lhe cabe – no tronco da árvore -, tudo o que ele faz é recolher e encaminhar aquilo que vem das profundezas da terra. Não servir nem dominar; apenas comunicar.
        Portanto ele assume uma posição realmente humilde. E a beleza da copa não lhe pertence, apenas passa através dele.

Informações extraídas de:
KLEE, Paul. Sobre a arte moderna e outros ensaios. Prefácio e notas: Günther Regel. Tradução: Pedro Süsskind. Revisão técnica: Cecília Cotrim. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001, páginas 52 e 53


Para maiores informações sobre este livro, acesse o link.
http://filmesdejoe.blogspot.com.br/2012/02/sobre-arte-moderna-e-outros-ensaios.html


quarta-feira, 4 de abril de 2012

CONVERSAS COM KAFKA. Autor: Gustav Janouch (literatura tcheca\alemã)

Conversas Com Kafka

Conversas com Kafka é um documento literário e humano de grande importância para a reinterpretação do revolucionário autor. O tímido escritor Gustav Janouch, então com 17 anos, conheceu Franz Kafka em 1920, quando este estava com 37 anos. Durante quatro anos eles formaram uma parceira no melhor estilo “mestre e discípulo”. Os detalhes quase cotidianos dessa relação foram registrados na obra Conversas com Kafka.

As conversas entre Gustav Janouch e Franz Kafka giravam em torno dos assuntos mais diversos, desde os temas literários, filosóficos e religiosos, até as questões estritamente pessoais. O período em que se desenvolveu o livro é o da atormentada relação de Kafka com Milena Jesenská Polak, a quem ele só se referia indiretamente.

TÍTULO: CONVERSAS COM KAFKA
TÍTULO ORIGINAL: GESPRACHE MIT KAFKA
IDIOMA: Português
ENCADERNAÇÃO: Brochura
FORMATO: 14 x 21
PÁGINAS: 240
ANO DA OBRA/COPYRIGHT: 1986
ANO DE EDIÇÃO: 2008
EDIÇÃO:
AUTOR: Gustav Janouch

TRADUTOR: Celina Luz

Conversas com Kafka não é uma obra de crítica ou de historiador da literatura, como Bernard Lortholary afirma no prefácio. O que Gustav Janouch faz é um “simples testemunho sobre o “Doutor Franz Kafka” com quem teve, em 1920, a oportunidade de se encontrar e conviver... imediatamente fascinado pelo autor de A Metamorfose, ele descobre mais do que um escritor: um mestre do pensar e mesmo do viver, do qual registra devotamente os propósitos”.

domingo, 18 de março de 2012

Discurso de Charlie Chaplin em "O grande ditador" legendado em português


 
Em seu primeiro filme falado, Chaplin interpreta dois papéis opostos – o de um barbeiro judeu, enfrentando tropas de choque e perseguição religiosa, e o do Grande Ditador Hynkel, uma brilhante sátira a Adolph Hitler. O clímax clássico desta fita é o célebre discurso final, um libelo sobre o triunfo da razão sobre o militarismo.
Informações TécnicasTítulo no Brasil: O Grande Ditador
Título Original: The Great Dictator
País de Origem: EUA
Gênero: Comédia
Tempo de Duração: 125 minutos
Ano de Lançamento: 1940
Estúdio/Distrib.: Continental Home Video
Direção:
Charlie Chaplin
Aqui está o video com trecho do discurso

 Assista o filme completo legendado



sábado, 17 de março de 2012

Introdução à sociologia da música, Autor: Theodor W. Adorno (link para download PDF)

Introdução à sociologia da músicaAdorno, Theodor W.

Sinopse
Em mais um livro da coleção de Theodor Adorno, este Introdução à sociologia da música compila uma série de conferências ministradas pelo pensador alemão, nas quais reflete sobre as interseções entre arte, história e sociedade. Mais especificamente, nestes textos, o autor lança questionamentos acerca dos processos que compõem as práticas de ouvir, sentir e criar música.
Cada capítulo do livro se destina a um dos muitos aspectos do universo musical. Adorno discorre, por exemplo, sobre a formação do público ouvinte de ópera, o culto contemporâneo à figura do maestro e as disparidades entre a opinião pública e a opinião crítica em relação à música. Nesta rica obra, o leitor irá encontrar contundentes análises de um dos principais filósofos do século XX.
Theodor W. Adorno

Numero de páginas: 420
Ano: 2011
Editora Unesp
Autor: Theodor W. Adorno


Thedor W. Adorno (1903-1969) foi um filósofo alemão e um dos principais teóricos da cultura. Fez parte da corrente conhecida como Escola de Frankfurt, ao lado de Max Horkheimer, Walter Benjamin e Jürgen Habermas.

FAÇA O DOWNLOAD DO LIVRO AQUI:

sexta-feira, 16 de março de 2012

Documentário Humano, Demasiado humano -Heidegger + livro A VIA DO PENSAMENTO DE MARTIN HEIDEGGER. Autor: Otto Pöggeler


Desde o seu aparecimento, este livro é um elemento imprescindível da literatura sobre Heidegger. Para a primeira elaboração deste livro, que foi publicado originalmente em 1963, o seu autor pôde ainda contar com o auxílio e a crítica do próprio Heidegger. Na presente edição, Pöggeler resume também a evolução da recepção de Heidegger, a qual não é mais possível separar de A Via do Pensamento de Martin Heidegger, Derrida e Habermas representam dois programas opostos da interpretação da obra de Heidegger. Com excessiva frequência, porém, são acentuadas as suas fraquezas, o seu envolvimento na política, o que reduz as preocupações intelectuais de Heidegger ou até as faz perder de vista. Nesse ponto, Pöggeler não se desvia de modo algum das dificuldades que a obra tardia de Heidegger coloca a cada um dos seus intérpretes. Ele recorre à obra da juventude, ainda por publicar, Beiträge zur Philosophie (Contributos para a Filosofia) e às últimas conferências de Heidegger. Às influências intelectuais de Dilthey, Yorck, Lutero e São Paulo, já Pöggeler se referira há mais de 30 anos. Esta interpretação, actualmente, já não sofre contestação e é complementada e aprofundada pelas mais recentes pesquisas. Por razões objectivas, não é pretendida uma «pluralidade das vias» na interpretação da via do pensamento de Heidegger, que se encontra menos sob o signo da noção do que sob o signo da existência, da realização do pensamento, do «acontecimento». A palavra «acontecimento» ocupa justamente uma posição central na obra ulterior de Heidegger. Empregue, com frequência, de modo enigmático, ela refere-se ao fim da filosofia clássica e à difícil formulação do próprio pensamento. A interpretação histórico-filosófica do pensamento de Heidegger é, para Pöggeler, evidente. Trata-se de um método, ao qual também Heidegger recorreu muitas vezes, mesmo se o rejeitou em passagens assinaláveis.

Autores:PÖGGELER, Otto (outras obras)
Editora PIAGET
Numero de páginas: 418

Humano, Demasiado Humano - Heidegger - Parte 1/5   (Documentário legendado)


O TEATRO DE MARIONETAS (Heinrich Von Kleist) (Literatura Alemã)


O TEATRO DE MARIONETAS (Heinrich Von Kleist)
Dois trechos demonstrativos + texto completo abaixo


Intrigou-me, então, que mecanismo o daquelas pequenas figuras, e sem haver milhares de cordéis entre os dedos como era possível cada membro e os seus centros nervosos serem comandados de acordo com o ritmo dos movimentos e da dança. Eu não devia imaginar que o manipulador atuava sobre cada membro em todos os momentos da dança, respondeu.

- Cada movimento– dizia – tem centro de gravidade próprio, e basta dirigi-lo no interior, dentro da figura; os membros, que não passam de pêndulos, não é preciso tocar-lhes pois atuam por si, de forma totalmente mecânica.

Acrescentou que era um movimento muito simples: cada vez que o centro de gravidade se deslocava em linha reta, os membros descreviam curvas; sendo vulgar que o conjunto, devido a uma circunstância totalmente fortuita, começasse a mexer-se ao sabor de um ritmo que lembrava a dança. (KLEIST, Heinrich Von. AS MARIONETAS. Tradução de Luís Bruhein e Aníbal Fernandes. Lisboa: Hiena Editora, Páginas 16 e 17)


[...] Verifica-se que a reflexão, no seio do mundo orgânico, é inversamente proporcional à graça: quanto mais fraca aquela é, mais esta irradia e domina. O mesmo se dá com duas curvas que, passando de ambos os lados de um ponto, se cortam no infinito; ou com a imagem de um espelho côncavo que repetidamente se faz real depois de ter atingido o infinito; também assim a graça ressurge depois do conhecimento atravessar, digamos, um infinito; e da mais pura forma ela se mostra, quer no corpo que tenha uma, infinita, querendo eu dizer no fantoche articulado ou em Deus. - Dessa forma – respondi um tanto perplexo – seria necessário voltarmos a provar do fruto do conhecimento para recuperarmos o estado de inocência. – Com certeza absoluta – respondeu – E será esse o derradeiro capítulo da história do mundo.

Extraído de:
KLEIST, Heinrich Von. AS MARIONETAS. Tradução de Luís Bruhein e Aníbal Fernandes. Lisboa: Hiena Editora, páginas 28 e 29


A editora Antígona fez chegar em Julho de 2009 às livrarias a obra Sobre o Teatro de Marionetas do escritor alemão Heinrich von Kleist numa tradução de José Miranda Justo. Sobre esta obra, diz a nota de imprensa: Heinrich von Kleist (1777-1811) é um dos nomes maiores da literatura alemã do séc. XIX e o mais importante dramaturgo do Romantismo alemão, considerado o precursor do teatro moderno. Além disso, escreveu poemas, novelas, contos e ensaios, em que revela um génio único.
Este volume reúne alguns textos de reflexão, escritos entre 1799 e 1811, de natureza estética, que denotam uma enigmática abordagem das questões metafísicas discutidas pelos grandes filósofos da época.
Outros títulos deste autor, na Antígona: Michael Kohlhaas, O Rebelde, e A Marquesa de O…/O Terramoto no Chile (esgotado).

http://www.acto.com.pt/acto/pdf/asmarionetas.pdf


Recomendo o texto de apresentação à obra da autoria de Isabel Alves Costa, publicado na OBSCENA #18.

Escrito em 1810, Sobre o Teatro de Marionetas, de Heinrich von Kleist, ganha nova vida numa tradução de José Miranda Justo, que a Antígona publicará em Fevereiro, integrando Do Mundo como da Arte - “Sobre o teatro de marionetas” e outros escritos, uma colectânea de textos do autor alemão. A acompanhar a pré-publicação, Isabel Alves Costa, directora artística do Festival Internacional de Marionetas do Porto, apresenta e contextualiza um ensaio clarividente e precursor de uma reflexão sobre o teatro enquanto modelo de influência.

Sobre o Teatro de Marionetas é um texto curto e enigmático, escrito por Heinrich von Kleist em 1810 cujo tema é o teatro de marionetas. Formalmente, apresenta-se como um diálogo entre o autor e o “primeiro bailarino da Ópera da cidade”. Este diálogo não tem lugar nos bastidores da Ópera, mas sim no espaço público de um jardim ao ar livre parecendo, com isso, que Kleist quer criar um distanciamento em relação ao espaço fechado do Teatro onde se representam as obras do reportório.

O diálogo gira em torno da superioridade das marionetas sobre os bailarinos de “carne e osso”. Poderia pensar-se que se trata apenas de um manifesto escrito para reabilitar esse género dito menor – que havia sido proibido por exercer uma “má influência sobre a população – e voltar a dar-lhe a dignidade do modelo teatral. Esta leitura sendo possível, é claramente redutora. A espessura deste texto permite- -nos ir encontrando sucessivas e cada vez mais profundas, interpretações.

Tendo sido praticamente ignorado até aos princípios do século XX, a sua leitura hoje faz dele um dos textos fundadores que enunciam a modernidade. Este escrito, diz-nos Claude Gaudin[1], “desenha profeticamente os saberes e as disciplinas que contribuirão para nos dar a “figura” do homem moderno”. O que Kleist pressente e anuncia é a grande mutação que conhecerá o teatro no final do século XIX princípios do século XX e, o exemplo do “maquinista” (ou no manipulador de marionetas) de que se serve, é já uma pré-figuração do encenador tal como o conheceremos 100 anos mais tarde.

Texto eminentemente literário que, embora não esteja incluído no conjunto da sua obra dramatúrgica, pode constituir-se como uma “chave” para a sua compreensão, vai buscar, curiosamente, as suas referências à mecânica e à biologia, à história e à psicologia, à matemática e à teologia, o que acentua a sua singularidade.

Sobre o Teatro de Marionetas, diz-nos ainda Claude Gaudin, “não se empenhava apenas numa reflexão sobre a estética teatral, mas também numa reflexão filosófica sobre a natureza da representação”. Mas este texto denso, de leituras múltiplas, abriria igualmente as portas a questões mais vastas uma vez que, por detrás da figura simbólica da marioneta, se perfilaria a ideia do homem e da universalidade da sua humanidade.

Sobre o Teatro de Marionetas não nos ensina nada sobre o teatro tal como se faz ou poderia fazer: não é nem uma confissão do dramaturgo Kleist, nem um ensaio de estética. Mas um texto como este diznos o sonho e o papel principal de todo o teatro: ser essa “viagem à volta do mundo” que, passando necessariamente pela degradação da repetição e pelo afrontamento do corpo, nos faça descobrir uma nova porta para o paraíso, logo escrever “o último capítulo da história do mundo”[2].

De leitura obrigatória e fundamental.

[1] La marionnette et son théâtre – le “théâtre” de Kleist et sa postérité, Ed. Presses Universitaires de Rennes, 2007

[2] Bernard Dort, Théâtre Public nº 43, éditions Théâtre de Gennevilliers, Janeiro/Fevereiro 1982

A OBSCENA #18 fez ainda uma pré-publicação de Sobre o Teatro de Marionetas.



Sobre o Teatro das Marionetas [3] (Texto completo)

Tradução do alemão e notas de José Miranda Justo. Revisão de Carla da Silva Pereira


Quando passei o Inverno de 1801 em M... [4], encontrei um dia ao fim da tarde num jardim público o Senhor C. que havia pouco tempo tinha sido contratado para o lugar de primeiro bailarino da Ópera da cidade, despertando extraordinário sucesso junto do público. Disse-lhe que muito me surpreendera tê-lo visto já por várias vezes num teatro de marionetas que havia sido erguido na praça do Mercado e que divertia a populaça com pequenos dramas burlescos misturados com cantares e danças.

Garantiu-me que a pantomima desses bonecos lhe proporcionava muito prazer e fez notar abertamente que um bailarino que quisesse progredir na sua formação tinha muito a aprender com eles.

Uma vez que esta declaração, pela maneira como a apresentou, me pareceu mais do que uma mera ideia súbita, sentei-me com ele na intenção de melhor compreendê-lo quanto às razões em que poderia apoiar uma afirmação tão estranha.

Perguntou-me se na verdade não havia achado particularmente gráceis alguns movimentos dos bonecos durante a dança, em especial dos mais pequenos.

Não pude negar que assim era. Nem Teniers [5] teria sido capaz de pintar com mais formosura um grupo de quatro camponeses transportados pelo ritmo vivo de um baile de roda.

Pedi-lhe que me informasse acerca do mecanismo dessas figuras e de como seria possível, sem miríades de fios amarrados aos dedos, comandar-lhes cada membro e os respectivos segmentos de acordo com as exigências rítmicas dos movimentos ou da dança.

Respondeu-me que não devia pensar que durante os diferentes momentos da dança cada membro fosse regulado e manipulado separadamente pelo maquinista.

Cada movimento, disse ele, tinha um centro de gravidade; bastava portanto comandar esse centro no interior da figura; os membros, que mais não eram do que pêndulos, obedeciam por si, de maneira mecânica, sem qualquer outra intervenção.

Acrescentou que este movimento era muito simples; que de cada vez que o centro de gravidade fosse movimentado segundo uma linha recta os membros descreveriam já linhas curvas; e que muitas vezes acontecia que, sacudido de maneira meramente casual, o conjunto da figura entrava numa espécie de movimento rítmico idêntico à dança.

Esta observação pareceu-me começar a lançar alguma luz sobre o prazer que ele confessara encontrar no teatro das marionetas. Mas encontrava-me ainda muito longe de pressentir as consequências que ele daí viria a tirar seguidamente.

Perguntei-lhe se achava que o maquinista que comandava estes bonecos devia ser bailarino ou pelo menos ter um conceito do belo na dança.

Retorquiu-me que se uma tarefa é simples na sua vertente mecânica, daí não decorre necessariamente que possa ser levada a cabo sem sentimento.

A linha que o centro de gravidade havia de percorrer era de facto muito simples e, ao que julgava saber, na maior parte dos casos recta. Em casos em que fosse curva, a lei da curvatura parecia ser apenas do primeiro grau ou quando muito do segundo; e, neste último caso, também somente elíptica, forma de movimento esta que é completamente natural nas extremidades do corpo humano (por causa das articulações) e cujo traçado não exige do maquinista grande técnica.

Por outro lado, porém, essa linha era algo de muito misterioso. Pois mais não seria do que o caminho da alma do bailarino; e ele duvidava de que tal linha pudesse ser encontrada senão de uma maneira: deslocando-se o maquinista para o centro de gravidade da marioneta, ou seja, dançando.

Retorqui que a tarefa do maquinista sempre me fora apresentada como coisa bastante destituída de espírito: algo como dar à manivela de um realejo.

De modo nenhum, respondeu-me ele. Pelo contrário, os movimentos dos dedos do maquinista mantêm com o movimento do boneco que lhes está preso uma relação assaz elaborada, algo como a relação de um número com o seu logaritmo, ou da assimptota com a hipérbole [6].

Entretanto acreditava que também esta última fracção de espírito de que acabara de falar podia ser retirada às marionetas, que a respectiva dança podia ser totalmente transferida para o domínio das forças mecânicas e ser produzida por intermédio de uma manivela, como eu havia imaginado.

Manifestei a minha admiração por verificar o grau de atenção que ele dedicava a esta modalidade de uma das belas artes, uma modalidade afinal inventada para a multidão. Não se limitava a achá-la capaz de alcançar um desenvolvimento superior: parecia que inclusivamente se ocupava dele.

Sorriu e disse que ousava afirmar que, se um mecânico quisesse construir-lhe uma marioneta de acordo com as estipulações que tencionasse impor-lhe, conseguiria executar com ela uma dança que nem ele, nem qualquer outro hábil dançarino do seu tempo, incluindo Vestris [7], estariam em condições de alcançar.

Vendo-me baixar os olhos sem nada dizer, perguntou-me: o Senhor já ouviu falar daquelas pernas mecânicas que certos artífices ingleses produzem para os infelizes que perderam os membros?

Respondi que não: nunca vira tal coisa.

Lamento, redarguiu; porque se lhe disser que, com elas, esses infelizes são capazes de dançar, quase temo que não me acredite. - Que digo: dançar? O âmbito dos seus movimentos é de facto limitado; porém, os que estão à disposição deles efectuam-se com uma calma, uma leveza e uma graça que provocam espanto em qualquer alma pensante.

Disse-lhe, gracejando, que assim sendo tinha já encontrado o seu homem. Pois o artífice que estivesse em condições de construir um membro tão singular, conseguiria sem dúvida fabricar-lhe uma marioneta inteira de acordo com as suas exigências.

Ficando ele por seu turno a olhar para o chão, um pouco consternado, perguntei-lhe: como se definem então essas exigências que o Senhor tenciona pôr à habilidade do artífice?

Nada, respondeu-me ele, que não se achasse já aqui; proporção, mobilidade, leveza – mas tudo isto em grau superior; e sobretudo uma distribuição mais natural dos centros de gravidade.

E a vantagem que esse boneco teria sobre os bailarinos com vida própria?

A vantagem? Antes de mais, meu excelente amigo, uma vantagem negativa, ou seja, o boneco nunca se mostraria afectado. – Porque a afectação surge, como o Senhor sabe, quando a alma (vis motrix [8]) se encontra num qualquer ponto que não coincide com o centro de gravidade do movimento. Ora, uma vez que o maquinista, com o arame ou com o fio, já não tem sob o seu poder qualquer outro ponto que não este: as restantes partes estão como devem estar, mortas, são puros pêndulos, seguindo a mera lei da gravidade; uma excelente qualidade que baldadamente procuraremos na maior parte dos nossos bailarinos.

Veja somente o que se passa com a P..., prosseguiu ele, quando faz o papel de Dafne e, perseguida por Apolo, olha em volta à procura dele; tem a alma nas cruzes; curva-se como se fosse partir-se, qual náiade da escola de Bernini [9]. Veja o jovem F... quando, no papel de Páris, se encontra entre as três deusas e apresenta a maçã a Vénus: tem a alma inteiramente no cotovelo (uma coisa assustadora).

Tais erros, acrescentou ele interrompendo-se, são inevitáveis desde que comemos da Árvore do Conhecimento. Porém o portão do Paraíso está fechado e o querubim lá ficou; teremos que dar a volta ao mundo e ver se há porventura um entrada aberta nas traseiras. Ri-me. – Não há dúvida, pensei eu, de que o espírito não pode enganar- se quando não existe espírito algum. Notei contudo que ele queria ainda dizer mais e pedi-lhe que continuasse.

Para além do mais, disse ele, estes bonecos têm a vantagem de serem anti-graves. Nada sabem da inércia da matéria, essa propriedade que mais do que qualquer outra contende com a dança: porque a força que os ergue no ar é maior do que a que os prende à terra. O que não daria a nossa boa G... para ser sessenta libras mais leve ou para que um contrapeso equivalente viesse em seu auxílio nos entrechats e nas piruetas? Os bonecos, tal como os elfos, só precisam do chão para o tocarem ao de leve e revitalizarem o impulso dos membros por via desse refreamento instantâneo; nós precisamos dele para nos apoiarmos e recobrarmos do esforço da dança: um momento que manifestamente não é dança e com o qual nada se pode fazer senão eclipsá-lo o mais possível.

Disse-lhe que, por muito habilmente que defendesse a causa do seu paradoxo, nunca me faria acreditar que num boneco articulado pudesse conter-se mais graciosidade do que no edifício do corpo humano. Replicou-me que para o homem, nesse particular, seria simplesmente impossível alcançar ao menos o nível do boneco. Neste âmbito, só um deus poderia medir-se com a matéria; e este era o ponto em que as duas extremidades do mundo, na sua circularidade, se tocavam. O meu espanto era cada vez maior e não sabia que dizer a propósito de tão estranhas afirmações.

Ao que parecia, replicou ele, tirando uma pitada de tabaco, eu não teria lido com atenção o terceiro capítulo do Primeiro Livro de Moisés [10]; e com quem não conhece esse primeiro período da formação humana não seria possível falar apropriadamente sobre os seguintes, e menos ainda sobre o último.

Disse-lhe que sabia bem as desordens que a consciência suscita na graça natural do homem. Um jovem conhecido meu perdera, por assim dizer à minha frente, por intermédio de uma simples observação, a sua inocência, e nunca mais voltara a encontrar o paraíso dela, apesar de todos os esforços imagináveis. – Ora que conclusões, acrescentei eu, poderá o Senhor tirar daí?

Perguntou-me a que incidente me referia.

Há coisa de uns três anos, contei eu, fora aos banhos na companhia de um jovem sobre cujo carácter pairava um extraordinário encanto. Estaria talvez no seu décimo sexto ano de vida e só de muito longe se divisavam nele os primeiros vestígios de vaidade acordada pelo favor das mulheres. Sucedia que pouco tempo antes havíamos visto em Paris aquele jovem que tira um espinho do pé [11]; as reproduções em bronze dessa estátua são conhecidas e encontram-se na maior parte das colecções alemãs. No instante em que punha o pé em cima do escabelo para o secar, lançou um olhar para um grande espelho que ali estava e recordou-se da figura; sorriu e contou-me a descoberta que acabara de fazer. De facto também eu a fizera precisamente no mesmo instante; porém, fosse para pôr à prova a segurança da graciosidade que nele havia, fosse para corrigir-lhe um pouco a vaidade: ri-me e respondi – decerto andava a ver espíritos! Corou e ergueu o pé pela segunda vez para que eu visse; a tentativa, contudo, como era fácil de prever, saiu frustrada. Embaraçado, ergueu o pé pela terceira e pela quarta vez, ergueu-o à vontade dez vezes: em vão! era incapaz de reproduzir o mesmo movimento – que digo? os movimentos que fazia tinham uma componente tão cómica que me era difícil conter o riso: –

A partir desse dia, por assim dizer, a partir desse instante, deu-se naquele jovem uma transformação inacreditável. Começou a passar dias inteiros frente ao espelho; e os encantos que antes tinha abandonaram- no um a um. Parecia que um poder invisível e inexplicável viera envolver o livre jogo dos seus gestos, como se fora uma rede metálica, e passado um ano já não se descortinava nele qualquer vestígio da graciosidade que em tempos deliciara os olhos de quem se movimentava à sua volta. Ainda hoje continua vivo alguém que foi testemunha desse incidente estranho e infeliz, e que pode confirmálo, palavra por palavra, como o contei. –

Nesta circunstância, o Senhor C... disse cordialmente, tenho que lhe contar uma outra história cujo lugar neste contexto facilmente compreenderá.

Durante a minha viagem à Rússia, estava eu numa propriedade do Senhor de G..., um fidalgo da Livónia, cujos filhos por aquela altura treinavam esgrima muito intensamente. Sobretudo o mais velho, que acabara de regressar da universidade, dava-se ares de virtuoso; numa manhã em que passei pelos seus aposentos pôs-me um florete na mão. Encetámos um combate; verificou-se porém que eu lhe era superior; a paixão ajudava a confundi-lo; quase todos os golpes que eu lhe dirigia tocavam-lhe e por fim o florete saltou-lhe da mão e foi parar a um canto. Enquanto ia apanhar o florete, disse-me, meio a brincar, meio melindrado, que havia encontrado o seu mestre: porém, neste mundo não há quem não encontre o seu, e ele queria levar-me até junto do meu. Os irmãos começaram a rir alto e gritavam: Vamos! vamos! desçamos ao estábulo! e de imediato me pegaram na mão e levaram-me até junto de um urso que o pai, o Senhor de G..., andava a criar no pátio.

Ao apresentar-me boquiaberto perante ele, o urso estava em pé sobre as patas traseiras, encostado a um poste ao qual estava preso; tinha a pata direita erguida, pronta para desferir um golpe, e olhava-me nos olhos: era a sua posição de esgrimista. Vendo-me face a um tal adversário, parecia-me estar a sonhar; avance! avance! dizia-me o Senhor de G..., e veja se consegue aplicar-lhe uma estocada! Encontrando-me já um pouco recuperado do meu espanto, ataquei o animal com o florete; o urso fez um movimento muito breve com a pata e parou o golpe. Tentei enganá-lo com fintas; o urso não se movia. Com uma agilidade instantânea, voltei a atacá-lo e, se se tratasse de um homem, ter-lhe-ia atingido infalivelmente o peito: o urso fez um movimento muito breve com a pata e parou o golpe. Encontrava-me agora quase na situação do jovem Senhor de G... O ar sério do urso ajudava a que eu fosse perdendo a minha postura, os golpes e as fintas iam alternando, comecei a suar: tudo era em vão! Não era só questão de o urso parar todos o meus golpes, como se fosse o melhor esgrimista do mundo; é que também não se deixava enganar por nenhuma simulação (coisa que nenhum esgrimista deste mundo seria capaz de imitar): olhos postos nos meus, como se fosse capaz de ler neles, ali estava, de pata levantada, pronta a golpear, e sempre que os meus golpes eram simulados nem sequer se mexia.

Acredita nesta história?

Perfeitamente! Disse eu, com um alegre aplauso na voz; é tão provável que acreditaria mesmo que fosse um estranho a contá-la: quanto mais vinda de si!

Portanto, meu excelente amigo, disse o Senhor C..., está agora na posse de tudo o que é necessário para me compreender. Vemos que, no mundo orgânico, à medida que a reflexão se torna mais obscura e mais fraca, a graciosidade se apresenta cada vez mais radiosa e soberana. – Porém, tal como a intersecção de duas linhas por um lado de um ponto, depois de percorrido o trajecto pelo infinito, se volta a verificar subitamente pelo outro lado do mesmo ponto, ou como a imagem no espelho côncavo, depois de se afastar até ao infinito, volta subitamente a surgir perante nós: assim também a graciosidade, depois de, por assim dizer, o conhecimento ter atravessado o infinito, volta a apresentar-se; e de tal maneira que surge em simultâneo e de modo mais puro naquela estrutura de um corpo humano que ou não possui consciência alguma, ou possui uma consciência infinita, i.e. ou no boneco articulado, ou num deus. Sendo assim, disse eu, um pouco abstraído, teríamos que voltar a comer da Árvore do Conhecimento para regressarmos ao estado da inocência.

Sem dúvida, respondeu ele; esse é o último capítulo da história do mundo.

[3] BA, publicado em quatro partes entre 12 e 15 de Dezembro de 1810. Em 17 de Novembro do mesmo ano, tinha sido decretada, com assinatura do imperador Frederico Guilherme III, uma proibição dos espectáculos de teatro de marionetas em Berlim, por exercerem “má influência” sobre a população.

[4] Possivelmente Mainz, onde Kleist havia estado em 1803.

[5] David Teniers, o Novo (1610-1690), pintor flamengo, filho de David Teniers, o Velho; autor de uma imensa produção, atingiu na sua época renome quase idêntico ao de Rubens e Van Dijck. Os seus temas são muito variados, mas é facto que pintou várias cenas de camponeses em festividades e danças.

[6] Exemplos não rigorosos.

[7] Auguste Vestris – nome artístico de Marie-Jean-Augustin Vestris – (1760-1842), bailarino francês.
[8] Em latim no original: “força motriz”.
[9] Giovanni Lorenzo Bernini, (1598-1680), escultor e arquitecto, um dos grandes expoente do barroco italiano. Entre 1622 e 1625 trabalhou numa representação de Apolo e Dafne. O juízo de Kleist parece dirigir-se, não tanto contra Bernini, mas sobretudo contra a repetição maneirista do seu tipo de representação nos epígonos.
[10] O terceiro capítulo do Génesis trata do pecado original e da expulsão do paraíso.
[11] O “Spinario”, estátua do séc. I a.C., possivelmente de Myron. Em Paris, no Louvre, encontra-se uma cópia em mármore.




Leia o o texto completo aqui em PDF
http://www.acto.com.pt/acto/pdf/asmarionetas.pdf

domingo, 11 de março de 2012

Rainer Maria Rilke, Cartas à um jovem poeta (CITAÇÕES IMPORTANTES)



CITAÇÕES IMPORTANTES DO LIVRO

(Rainer Maria Rilke, Cartas à um jovem poeta, Tradução: Paulo Rónai e Cecília Meireles, São Paulo: Editora Globo, 2007)



Procure entrar em si mesmo. Investigue o motivo que o manda escrever; examine se estende suas raízes pelos recantos mais profundos de sua alma; confesse a si mesmo: morreria, se lhe fosse vedado escrever?. Isto, acima de tudo, pergunte a si mesmo na hora mais tranqüila de sua noite: “Sou mesmo forçado a escrever? Escave dentro de si uma resposta profunda. Se for afirmativa, se puder contestar àquela pergunta severa por um forte e simples “sou”, então construa a sua vida de acordo com essa necessidade. Sua vida, até em sua hora mais indiferente e anódina, deverá tornar-ser o sinal e o testemunho de tal pressão. Aproxime-se então da natureza. Depois procure, como se fosse o primeiro homem, dizer o que vê, vive, ama e perde. [...] Relate tudo com íntima e humildade sinceridade. Utilize, para se exprimir, as coisas de seu ambiente, as imagens de seus sonhos e os objetos de suas lembranças. Se a própria existência cotidiana lhe parecer pobre, não a acuse. Acuse a si mesmo, diga consigo que não é bastante poeta para extrair as suas riquezas. Para o criador, com efeito, não há pobreza nem lugar mesquinho e indiferente. O criador, com efeito, deve ser um mundo para si mesmo e encontrar tudo em si e nessa natureza a que se aliou.

Página 26, 27, 28



Quero falar-lhe hoje apenas de duas coisas. Primeiro, da ironia. Não se deixe dominar por ela, sobretudo em momentos estéreis. Nos momentos criadores procure servir-se dela, como de mais um meio para agarrar a vida. Utilizada com pureza, ela também é pura e não nos deve envergonhar. Ao verificar, porém, que se familiariza demais com ela, temendo uma intimidade excessiva, volte-se para objetos grandes e graves, diante dos quais ela se encolhe desajeitada. (Página 32)



[...] Leia o menos possível trabalhos de estética e crítica. Ou são opiniões partidárias petrificadas e tornadas sem sentido em sua rigidez morta, ou hábeis jogos de palavras inspirados hoje numa opinião, amanhã noutra. As obras de arte são de uma infinita solidão; nada as pode alcançar tão pouco quanto a crítica. Só o amor as pode compreender e manter e mostrar-se junto com elas. É sempre a si mesmo e a seu sentimento que deve dar razão contra toda explanação, comentário ou introdução dessa espécie. Mesmo que se engane, o desenvolvimento natural de sua vida interior há de conduzi-lo devagar, e, com o tempo, outra compreensão. Deixe a seus julgamentos sua própria e silenciosa evolução sem a perturbar; como qualquer progresso, ela deve vir do âmago do seu ser e não pode ser reprimida ou acelerada por coisa alguma. Tudo está em levar a termo e, depois, dar à luz. Deixar amadurecer inteiramente, do inacessível a seu próprio intelecto, cada impressão e cada germe de sentimento, e aguardar com profunda humildade e paciência a hora do parto de uma nova claridade; só isso é viver artisticamente na compreensão e na criação.

Página 36 e 37



[...] Ser artista não significa calcular e contar, mas sim amadurecer como a árvore que não apressa a sua seiva e enfrenta tranqüila as tempestades da primavera, sem medo de que depois dela não venha nenhum verão. O verão há de vir. Mas virá só para os pacientes, que aguardam num grande silêncio intrépido, como se diante deles estivesse a eternidade. Aprendo-o diariamente, no meio de dores a que sou agradecido: a paciência é tudo. (Página 37)



[...] “Viver e escrever em cio”. Com efeito, a experiência artística está tão incrivelmente perto da experiência sexual no sofrimento e no gozo, que os dois fenômenos não são senão formas diversas da mesma saudade e da mesma bem-aventurança. (Página 38)



[...] Se se agarrar à natureza, ao que ela tem de simples, à miudeza que quase ninguém vê e que tão inesperadamente se pode tornar grande e incomensurável; se possuir este amor ao insignificante; se procurar singelamente ganhar como um servidor a confiança daquilo que parece pobre – então tudo se lhe há de tornar fácil, harmonioso e, por assim dizer, reconciliador. [...] (Página 42)


O Entrelinhas de hoje destaca a obra de um dos maiores poetas da língua alemã: Rainer Maria Rilke. Sua obra mais famosa, Cartas a um Jovem Poeta, foi adaptada para o teatro e está em cartaz em São Paulo, em monólogo com o ator Ivo Müller. A gente conversou com Müller e com o professor de literatura Tércio Redondo autor de uma das traduções de Rilke que vêm sendo lançadas no mercado brasileiro e que marcam o renascimento do autor de Elegias de Duíno e Sonetos a Orfeu. 

O senhor é tão moço, tão aquém de todo começar, que lhe rogo, como melhor posso, ter paciência com tudo o que há para resolver em seu coração e procurar amar as próprias perguntas como quartos fechados ou livros escritos num idioma muito estrangeiro. Não busque por enquanto respostas que não lhe podem ser dadas, porque não as poderia viver. [...] (Página 42)



Numa idéia criadora revivem mil noites de amor esquecidas que a enchem de altivez e altitude. Aqueles que se juntam à noite e se entrelaçam num baloiçar de volúpia executam obra grave, reunindo doçuras, profundezas e forças para a canção de algum poeta vindouro que há se surgir para dizer indizíveis prazeres.  (Página 44)



Pudesse ter respeito para com a própria fecundidade, que é uma só, embora pareça ora espiritual ora corporal. A criação intelectual, com efeito, provém também da criação carnal. É da mesma essência; é apenas uma repetição mais silenciosa, enlevada e eterna da volúpia do corpo. [...] (Página 44)



[...] A beleza da virgem, um ser “que” – como diz com tanto acerto – “ainda não cumpriu nada”, é maternidade que se pressente e se prepara, que anseia e deseja. A beleza da mãe é a maternidade que serve; a da anciã, uma grande recordação. No próprio homem, parece-me, há maternidade carnal e espiritual; a sua criação também é uma maneira de dar à luz, pois criar com plenitude íntima é dar à luz. Talvez os sexos sejam mais aparentados do que se pensa e a grande renovação do mundo talvez resida nisso: o homem e a mulher, libertados de todos os sentimentos falsos, de todos os empecilhos, virão a procurar-se não mais como contrastes, mas sim como irmãos e vizinhos; a juntar-se como homens para carregarem juntos, com simples e paciente gravidade, a sexualidade difícil que lhes foi imposta. (Página 45)



[...] Ame a sua solidão e carregue com queixas harmoniosas a dor que ela lhe causa. Diz que os que sentem próximos estão longe. Isso mostra que começa a fazer-se espaço em redor de si. Se o próximo lhe aparecer longe, os seus longes alcançam as estrelas, são imensos. Alegre-se com essa imensidade, para a qual não pode carregar ninguém consigo. Seja bom para com os que ficarem atrás, mostre-se lhes calmo e sereno sem os atormentar com suas dúvidas, nem os assustar com uma confiança ou uma alegria que eles não poderão compreender. (Páginas 45 e 46)



Pense, caro senhor, no mundo que leva em si e chame o seu pensamento como quiser: reminiscência da sua própria infância ou saudade do futuro – o que importa, apenas, é prestar atenção ao que nasce dentro de si e colocá-lo acima de tudo o que observar em redor. Os seus acontecimentos interiores merecem todo o seu amor. [...] (Página 52)



Não se deve deixar enganar em sua solidão, por existir algo em si que deseja sair dela. Justamente tal desejo, se dele se servir traqüila e sossegadamente como de um instrumento, há de ajudá-lo a estender a sua solidão sobre um vasto território.  Os homens, com o auxílio das convenções, resolveram tudo facilmente e pelo lado mais fácil da facilidade; mas é claro que devemos agarrar-nos ao difícil. [...] Sabemos pouca coisa, mas que temos de nos agarrar ao difícil é uma certeza que não nos abandonará. É bom estar só, porque a solidão é difícil. O fato de uma coisa ser difícil deve ser um motivo a mais para que seja feita. (Página 58)





Temos que aceitar a nossa existência em toda a plenitude possível; tudo, inclusive o inaudito, deve ficar possível dentro dela. No fundo, só essa coragem nos é exigida: a de sermos corajosos em face do estranho, do maravilhoso e do inexplicável que se nos pode defrontar. Por se terem os homens revelado covardes nesse sentido, foi a vida prejudicada imensamente. [...] Não é apenas a preguiça que faz as relações humanas se repetirem numa tão indizível monotonia em cada caso; é também o medo de algum acontecimento novo, incalculável, diante do qual não nos sentimos bastantes fortes. Somente quem está preparado para tudo, quem não exclui nada, nem mesmo o mais enigmático, poderá viver sua relação com outrem como algo de vivo e ir até o fundo de sua própria existência. Se imaginarmos a existência do indivíduo como um quarto mais ou menos amplo, veremos que a maioria não conhece senão um canto do seu quarto, um vão da janela, uma lista por onde passeiam o tempo todo, para assim possuir certa segurança. [...] (páginas 68, 69)



[...] Talvez todos os dragões de nossa vida sejam princesas que aguardam apenas o momento de nos ver um dia belos e corajosos. Talvez todo horror, em última análise, não passe de um desamparo que implora o nosso auxílio. (Página 70)



Por que deseja excluir de sua vida toda e qualquer inquietação, dor e melancolia, quando não se sabe como tais circunstâncias trabalham no seu aperfeiçoamento¿ Para que perseguir-se a si mesmo com a pergunta: de onde pode vir tudo aquilo e para onde vai¿ Não sabia estar em transição¿ Desejava algo melhor do que transformar-se¿ Se algum ato teu for doentio, lembre-se de que a doença é o meio de que o organismo se serve para se libertar de um corpo estranho; é só ajudá-lo a ficar doente, ter toda a sua doença e deixar a esta o seu curso. [...] Deve ter a paciência de um doente e a confiança de uma convalescente, pois talvez seja um e outro. Mais ainda: o senhor é também o médico que se deve vigiar a si mesmo. Em muitas doenças, porém, há dias em que o médico nada pode fazer senão esperar. É o que o senhor deve fazer agora, porquanto é seu próprio médico. (Página 70)



Não se observe demais. Não tire conclusões demasiadamente apressadas do que lhe acontece; deixe as coisas acontecerem. Senão chegará facilmente a encarar com censuras (morais) o seu passado, que naturalmente é responsável em parte do que lhe ocorre agora.

[...] Desejo que encontre bastante paciência em si para suportar e bastante simplicidade para crer; que confie cada vez mais no que é difícil, entre outras coisas na sua solidão. No restante, deixe a vida acontecer [...] (Página 74)



Quanto aos sentimentos: são puros todos aqueles que o senhor concentra e guarda; impuros os que agarram só um lado de seu ser e o deformam. Tudo o que pode pensar a respeito de sua infância é bom. Tudo o que torna algo mais do que foi até agora em suas melhores horas é bom. Toda intensificação é boa, quando está em todo o seu sangue, quando não é turva ebriedade, mas alegria cujo fundo se vê. [...] (Página 74)



Sua dúvida pode tornar-se uma qualidade se o senhor a educar. Deve-se transformar em saber, em crítica. Cada vez que ela lhe quiser estragar uma coisa, pergunte-lhe por que aquilo é feio. Peça-lhe provas, examine-a; talvez a ache indecisa e embaraçada, talvez revoltada. Mas não ceda, exija argumentos. Ponha-se a agir assim, atenta e conseqüentemente, cada vez, e dia virá em que, de destruidora, ela se tornará sua melhor colaboradora, talvez a mais sábia de quantas cooperam na construção de sua vida.

(página 74)

sexta-feira, 9 de março de 2012

Dear Fidel: Maritas Story = Lieber Fidel: Maritas Geschichte, (DOCUMENTÁRIO ALEMÃO)

Lieber Fidel - Maritas Geschichte (2001)

This 90-minute documentary recounts the fascinating, comical and tragic life story of a master of the art of survival whose adventures led her from Bremen to New York, Miami and Havana. She survived a concentration camp, rape, abortion, the CIA, Castro, the mafia and the Cold War. The film is an attempt to trace her motives and hidden truths. A documentary and love story with intrigue, this film reflects a dramatic chapter in 20th century history. 

Dados técnicos

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Gênero
Título Original
Lieber Fidel - Maritas Geschichte
Diretor
Atores principais
Ano de produção
2001
Duração
90 minutos.
Escritor
País: Alemanha

Partes de 1 a 8 no YOUTUBE


Simplesmente Martha, Direção:Sandra Nettelbeck, cinema sobre temática AFETIVIDADE PELA CULINÁRIA



Na tradição de A Grande Noite e Como Água Para Chocolate esta é uma deliciosa comédia romântica, que ganhou mais de 10 prêmios internacionais e conquistou o coração dos fãs de cinema em todo o mundo. Martha é uma mulher solteira que vive para uma única paixão: cozinhar. Como cozinheira chefe de um restaurante sofisticado, ela não tem tempo para nada nem para ninguém. Mas sua vida solitária é abalada quando um acidente do destino coloca Lina, sua sobrinha de oito anos, na porta da sua casa. À medida que Martha luta para cuidar da voluntariosa menina, o restaurante contrata um charmoso e descontraído cozinheiro italiano chamado Mario. Desconfiada das intenções de Mario, ela descobre, pouco a pouco, que ele tem uma receita especial para viver... uma receita que vai envolver sua casa e seu coração. Com sua apetitosa mistura de comédia, romance e comida, Simplemente Martha é um filme muito saboroso.
Martha (Martina Gedeck), com seu modo charmoso e obsessivo, cria verdadeiras obras de arte cozinhando num pequeno restaurante em Hamburgo. Apesar disso, seu cotidiano é monótono. Martha é muito introvertida e praticamente não possui vida própria, dedicando-se totalmente ao trabalho. Tudo isso muda quando sua irmã morre em um acidente, fazendo com que ela tenha de cuidar de Lina (Maxine Foerste), sua sobrinha de oito anos. É quando aparece Mario (Sergio Castellito), um extrovertido cozinheiro italiano que consegue trazer um pouco de alegria para as duas. No momento em que Martha e Mario começam um romance, o pai de Lina, que há muito tempo estava desaparecido, surge querendo levá-la para a Itália.

Informações TécnicasTítulo no Brasil: Simplesmente Martha
Título Original: Bella Martha
País de Origem: Itália / Alemanha / Áustria / Suíça
Gênero: Comédia
Tempo de Duração: 106 minutos
Ano de Lançamento: 2001
Site Oficial: http://www.paramountclassics.com/ma rtha/index.html
Estúdio/Distrib.: Paramount Pictures
Direção:
Sandra Nettelbeck

quarta-feira, 7 de março de 2012

Diferente de Outros, cinema alemão com temática gay

"Anders Als Die Andern" - Reconstruído por Filmmuseum München. Pode ser o mais antigo "filme gay" em longa-metragem. Milhares de homossexuais na Alemanha foram sentenciados a penas de mais de cinco anos de cárcere pelo parágrafo 175 do Código Penal. Promulgada em 1871, com a criação da moderna nação alemã, esta lei contra "um vício antinatural entre homens" endureceu-se na era Nazista e depois se liberalizou nas duas Alemanhas, mas não foi totalmente derrogada até 1994. A lei foi desafiada em 1897 pelo movimento alemão de emancipação homossexual, o primeiro deste tipo em todo mundo. Seu líder, o dr. Magnus Hirschfeld (1868-1935), mantinha que os homossexuais constituíam um biológico "terceiro sexo", uma minoria social sujeita injustamente a discriminação. Hirschfeld argumentava que o parágrafo 175 não ajudava, mas sim fomentava a extorsão. Por cada homossexual açoitado pela lei, outros cem eram vítimas de chantagistas.
Durante a 1ª Guerra Mundial, o Diretor Richard Oswald (1880-1963) começou a colaborar com o Hirschfeld e outros sexólogos para produzir uma série de "filmes explicativos" encaminhados à educação sexual. Começaram temas como enfermidades venéreas, prostituição, e aborto, incluídos em uma história que neles haviam conselhos de um médico sábio. Depois da guerra, a censura foi temporalmente levantada em todos os meios alemães, o que abria uma janela aos cineastas. Em 1919, Hirschfeld e Oswald colaboraram em DIFERENTE DE OUTROS (Parágrafo 175), o primeiro filme do mundo em tratar explicitamente da homossexualidade. Em um ano, os estudos alemães já contavam com 150 longas-metragem de tema sexual. Muitos desses "filmes explicativos" eram horríveis, mas foram êxitos comerciais. Os protestos que provocaram, fizeram voltar para a censura. Todo o centro da controvérsia foi DIFERENTE DE OUTROS, que foi proibido em 1920 e sobrevive, hoje, fragmentada.

Ficha Técnica

Estado: Em DVD
Título Original: Anders Als Die Andern
Gênero:
Direção:
Roteiro:
Produtores:
Elenco:
Conrad Veidt (Paul Körner)Magnus Hirschfeld (Arzt)Helga Molander (Mrs. Hellborn)Reinhold Schünzel (Franz Bollek)Anita Berber (Else Sivers)Clementine Plessner (Sivers' Mother)Wilhelm Diegelmann (Sivers' Father)Fritz Schulz (Kurt Sivers)Ernst Pittschau (Brother-in-Law)Alexandra Willegh (Körner's Mother)Ilse von Tasso-Lind (Körner's Sister)Leo Connard (Körner's Father)Karl Giese (Paul Körner als Schüler)
País de Origem: Alemanha
Estreia Mundial: 28 de Maio de 1919
Duração: 50 minutos
Outros Títulos:
Estados Unidos da América: Different From The Others