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quarta-feira, 18 de abril de 2012

Livro TUTAMÉIA: Terceiras Estórias. (autor: João Guimarães Rosa)


Livro - Tutaméia - Terceiras Estórias
Este volume reúne as narrativas mais curtas do autor, originalmente escritas para publicação em revista. A região Centro-Oeste, o sertão mineiro, as velhas fazendas, as pequenas povoações, as grandes boiadas e os seus vaqueiros constituem o ambiente em que se desenrolam os acontecimentos. Último livro publicado em vida de Guimarães Rosa. Prêmio Jabuti de Produção Gráfica (menção honrosa) em 2002.



sábado, 7 de abril de 2012

Estrambote Melancólico. Poema de Carlos Drummond de Andrade



Tenho saudade de mim mesmo,
saudade sob aparência de remorso,
de tanto que não fui, a sós, a esmo,
e de minha alta ausência em meu redor.
Tenho horror, tenho pena de mim mesmo
e tenho muitos outros sentimentos
violentos. Mas se esquivam no inventário,
e meu amor é triste como é vário,
e sendo vário é um só. Tenho carinho
por toda perda minha na corrente
que de mortos a vivos me carreia
e a mortos restitui o que era deles
mas em mim se guardava. A estrela-d'alva
penetra longamente seu espinho
(e cinco espinhos são) na minha mão.

Jorge Amado (1/2) - De Lá Pra Cá (O melhor de Jorge Amado-vídeo-Literatura brasileira)

Neste De Lá Pra Cá, a vida e a obra de Jorge Amado, o escritor que mais contribuiu para divulgar o Brasil e a gente brasileira.

Jorge Amado é um dos maiores e mais famosos escritores brasileiros de todos os tempos. Ao longo de setenta anos de carreira literária, escreveu mais de cinquenta livros; foram romances, contos, novelas, crônicas, biografias, poesia e crítica. É o autor brasileiro mais publicado em todo o mundo: foi editado em cinquenta e dois países e traduzido para quarenta e nove línguas diferentes. Entre os nossos escritores, Jorge Amado é também o mais adaptado para a televisão e para o cinema, inclusive produções no exterior.

O sucesso, os recordes de vendas e o reconhecimento do grande público também lhe renderam críticas. Muitas vezes seu trabalho foi esnobado por alguns intelectuais, que o acusaram de produzir uma literatura estereotipada, prejudicial àimagem do Brasil no exterior. Mas nada disso impediu Jorge Amado de receber honrarias e prêmios importantes, além de duas indicações para o Nobel de Literatura.

Participam deste programa o cineasta Bruno Barreto, o embaixador Alberto da Costa e Silva e a diretora da Fundação Casa de Jorge Amado Myriam Fraga.

O programa, apresentado por Ancelmo Gois e Vera Barroso dá-nos um panorama sobre a vida desse magnífico escritor brasileiro.



quarta-feira, 4 de abril de 2012

O Fazendeiro do ar, 1972. Direção: Fernando Sabino, Documentário sobre Drummond de Andrade


Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) é o protagonista do curta-metragem Fazendeiro do Ar. Lançado em 1972, o curta marca a aventura de Fernando Sabino no cinema. Cenas raras mostram o poeta mineiro à vontade, refletindo sobre aspectos de sua própria vida, crenças, vocação, talento, família, religião, política, distante da timidez que costuma acompanhar grandes poetas.

O Fazendeiro do Ar explora a rotina do poeta, o caminhar no meio da multidão, o prosaico passageiro de ônibus, que vai de sua casa até o centro da cidade onde trabalhava como servidor público. Entre fatos de sua história, e sua paixão pelas palavras, o poeta brinca de esconder entre as pilastras do Ministério da Educação – onde foi chefe de gabinete do ministro Gustavo Capanema.

E sobre trabalhar como funcionário público, o poeta que define ador como inevitável, e o sofrimento como opcional, desabafa: "Há um grande contraste entre as minhas tendências naturais e a vida que eu levei de pequeno burguês acomodado e calmo. Foi o sentimentalismo familiar, a ligação com amigos mais ponderados e a necessidade de ganhar a vida que fizeram com que eu fosse, não um anarquista militante, mas um funcionário público."




Embora o filme descreva pessoalidades de Drummond, que por si já torna a trabalho de Sabino bastante interessante, o curta, sobretudo, ganha o espectador quando explora a paixão de um dos maiores poetas brasileiro pela palavra.
“Eu confesso que desde criança tive uma espécie de fascinação inconsciente pela palavra, pela forma visual da palavra. O aspecto visual das palavras, a forma, a escrita, o papel com desenhos, com riscos, com letras me causava uma impressão muito forte. E eu acho que tudo que eu fiz, em matéria de literatura, vem desse primeiro contato com a palavra impressa”.

sexta-feira, 30 de março de 2012

GRANDE SERTÃO VEREDAS, Direção: Renato Santos Pereira, Filme (1965) baseado em Guimarães Rosa.


Após escrever com alta intensidade criativa durante dois anos, Guimarães Rosa chega ao terceiro livro em 1956; Grande Sertão: Veredas traz uma narrativa épica que se desenrola por 600 páginas e mostra de maneira inovadora para sua época e com uma impressionante técnica literária, o jeito rude do homem do sertão mineiro. Mais que um simples romance, Guimarães Rosa nos brinda com um "amor proibido" de imensa profundidade psicológica entre os personagens Riobaldo e Diadorim. O livro alcança tamanho impacto que extrapola os limites da língua sendo traduzido com enorme sucesso comercial para vários países. Em 1965, os irmãos Geraldo e Renato Santos Pereira, com muito talento, realizaram esta digna primeira adaptação da obra, antecipando-se exatos 20 anos da adaptação para a TV através da minissérie homônima, um marco na história da televisão brasileira.
Da obra de Guimarães Rosa, um clássico de nossa literatura, levado às telas em uma adaptação vibrante que mostra uma parte de nossa história.





GêneroCinema Nacional
AtoresMauricio do Valle, Sonia Clara, Graça Mello, Luigi Picci, Jofre Soares, Ivan Souza, Zózimo Bulbul, David José, Gloria Goulart, Milton Gonçalves,
DireçãoGeraldo dos Santos Pereira, Renato dos Santos Pereira,
IdiomaPortuguês,
LegendasNão Fornecido pela Distribuidora,
Ano de produção1965
País de produçãoBrasil,
Duração1965
DistribuiçãoAmazonas Filmes
RegiãoMultizonal
ÁudioSom original
VídeoTela Cheia
CorPreto-e-branco

segunda-feira, 19 de março de 2012

Viagem e Vaga Música, de Cecília Meireles



Viagem e Vaga Música, de Cecília Meireles

Com o livro Viagem, de 1938, Cecília Meireles encontra seu estilo definitivo. O verso melódico sustenta os motivos fundadores de sua poética – sonho, solidão, mar, canção, melancolia, nuvens, céu, morte...

Obra que consagra a autora, além da interpretação de uma trajetória espiritual, Viagem apresenta poemas que refletem sobre o fazer poético, em indagações ainda encontradas em livros posteriores.

A obra Viagem, juntamente com Vaga Música, inscrevem-se no panorama do Modernismo brasileiro e assinalam sua singularidade primordial. São poemas marcados pela engrandecimento dos elementos mais simples da existência, os quais adquirem significação simbólica.

A obra, pela capacidade lírica inovadora, retrata uma permanente viagem interior; intimista e introspectiva, sugerindo num tom leve e delicado, temas de solidão, melancolia, fuga pelo sonho, o vazio do existir, saudades e sofrimento. Essas características percorrerão toda sua obra lírica.

Poetisa da fugacidade, da precariedade, da provisoriedade, Cecília Meireles, desde Viagem, marca essa noção capital de fluidez em vários dos elementos da natureza que surgem ao longo de sua poesia, dentro de um fluxo mais amplo que é o do próprio canto.

Utilizando-se de jogos de palavras, metáforas, sinestesias, dentre outras figuras de linguagem, o eu-lírico investiga o processo de criação literária. Tal questão é tematizada em várias poesias, como se verifica no poema Motivo:

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
- não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
- mais nada.

Viagem é composto por doze poemas, que podem ser interpretados como doze etapas de uma trajetória espiritual, onde vida e poesia se confundem, da mesma maneira que a poeta e a natureza. Formalmente, convivem lado a lado versos de sete e oito sílabas e versos livres.

Viagem
Fez tanto luar que eu pensei em teus olhos antigos
e nas tuas antigas palavras.
O vento trouxe de longe tantos lugares em que estivemos
que tornei a viver contigo enquanto o vento passava.

Houve uma noite que cintilou sobre o teu rosto
e modelou tua voz entre as algas.
Eu moro, desde então, nas pedras frias que o céu protege
e estudo apenas o ar e as águas.

Coitado de quem pôs sua esperança
nas praias fora do mundo...
- Os ares fogem, viram-se as água,
mesmo as pedras, com o tempo, mudam.


Há em Viagem, em Vaga Música (1942), as claridades clássicas, as melhores sutilezas do gongorismo, a nitidez dos metros e dos consoantes parnasianos, os esfumados de sintaxe e as toantes dos simbolistas, as aproximações inesperadas dos super-realistas. Tudo bem assimilado e fundido numa técnica pessoal, segura de si e do que quer dizer. Vaga música marcou definitivamente o clímax de sua carreira como escritora. A obra mostra sua poesia contínua que avança para uma virtuosidade implacável, com uma preocupação crescente com a imagem do mar, sugerindo a fluidez plástica e a adaptação de sua personalidade interna.

Uma das formas poéticas mais utilizadas em Vaga música é a da canção, o que vem indicado, à maneira antiga, já nos títulos: "Pequena canção da onda", "Canção da menina antiga", "Canção excêntrica", "Canção quase inquieta", "Canção do caminho", "Canções do mundo acabado", "Canção quase melancólica", "Canção de alta noite", "Canção mínima", entre muitas outras semelhantes.

Essa forma é na verdade largamente usada em toda a obra de Cecília Meireles, não constituindo uma peculiaridade apenas desse livro.

Note o poema seguinte extraído de Vaga música:

Pequena canção
Pássaro da lua,
que queres cantar,
nessa terra tua,
sem flor e sem mar?

Nem osso de ouvido
Pela terra tua.
Teu canto é perdido,
pássaro da lua...

Pássaro da lua,
por que estás aqui?
Nem a canção tua
precisa de ti!


No poema escolhido, algumas características da canção aparecem nitidamente: a forte atuação do som e do ritmo, a impregnação da realidade exterior pela emoção, o apagamento dos fatos, a indeterminação quanto ao tempo e ao espaço. Essas características se ligam intimamente. Assim, a musicalidade mais enfatizada na canção indica a fusão entre o eu e o mundo exterior. A alma invade o mundo objetivo, que aparece apenas como um reflexo daquela. Isso leva a um apagamento dos contornos da vida exterior e, conseqüentemente, a frases mais brandas, mais musicais, pois, mais do que definir um acontecimento, busca-se criar uma atmosfera emocional, para o que a música contribui fortemente. Esse relaxamento dos contornos implica também o relaxamento das noções de tempo e espaço, elementos sempre difíceis de precisar numa canção, que parece no mais das vezes se desenvolver no sem-tempo e no sem-espaço. É o sem-tempo e o sem-espaço da vida interior.

terça-feira, 13 de março de 2012

Livro - Machado de Assis (1935-1958). Autor: Augusto Meyer...interessantíssimo




Livro - Machado de Assis (1935-1958)
"É assim que ele chega a ser, à luz da ironia, a personagem mais interessante da sua obra: Machado de Assis, um velhote meticuloso, funcionário exemplar, bom marido, tímido, muito discreto, animal de hábitos moderados mas que também tem a sua cachaça: faz ironia. Fabrica o seu azedume estilizado como Sofia brinca de seduzir o mineiro e Capitu engana o marido, como Aires escreve as memórias e Brás Cubas deixa a vida correr ? por desfastio, por hábito, por vício, movido pelo deslanchar dum mecanismo íntimo."

Lançado originalmente em 1935 e reeditado, acrescido de diversos artigos publicados na imprensa, em 1958, o livro Machado de Assis (1935-1958), de Augusto Meyer, um dos maiores críticos literários brasileiros de todos os tempos, é, nas palavras de Alberto da Costa e Silva, "um dos mais importantes que temos sobre Machado de Assis, e nada justifica ter ficado por meio século quase fora do alcance de duas ou três novas gerações de leitores". No centenário da morte do "Bruxo do Cosme Velho", a editora José Olympio, em parceria com a Academia Brasileira de Letras, devolve às estantes esta obra fundamental para leitores, críticos, estudantes e estudiosos.

São ensaios concisos, claros, harmoniosos e eruditos na medida certa, cobrindo mais de 25 anos de leituras de Machado de Assis e reflexões sobre a sua obra. Apesar de escritos entre 50 e 73 anos atrás, nem o mais antigos dos textos envelheceu. Somados, eles oferecem ao leitor contemporâneo um dos melhores retratos já feitos sobre o, como escreveu o próprio Meyer, "genuíno Machado, feito do sopro das palavras gravadas no papel."

"Deu-se entre Machado de Assis e Augusto Meyer um desses encontros perfeitos entre autor e leitor, nos quais são desafios de entendimento até as pausas e os silêncios", prossegue Costa e Silva. "E, se Machado pudesse sair de seus livros e olhar por cima dos ombros de Meyer para o que este punha no papel, não hesitaria em reconhecer a sensibilidade, o apuro, a clareza, a elegância, a sobriedade, a graça e ? acima de tudo ? a amorosa admiração com que comentava a sua obra e, a partir dela, lhe traçava o retrato, um retrato que não correspondia à imagem que de si próprio tinha, quando diante do espelho ajustava o pincenê."

Título: Machado de Assis (1935-1958)
Páginas: 192
Edição: 1
Tipo de capa: BROCHURA
Editora: José Olympio
Ano: 2008
Assunto: Ensaios
Idioma: Português

sábado, 10 de março de 2012

UMA CRIATURA. Poema de Machado de Assis


Uma Criatura

Sei de uma criatura antiga e formidável,
Que a si mesma devora os membros e as entranhas,
Com a sofreguidão da fome insaciável.
Habita juntamente os vales e as montanhas;
E no mar, que se rasga, à maneira do abismo,
Espreguiça-se toda em convulsões estranhas.
Traz impresso na fronte o obscuro despotismo;
Cada olhar que despede, acerbo e mavioso,
Parece uma expansão de amor e egoísmo.
Friamente contempla o desespero e o gozo,
Gosta do colibri, como gosta do verme,
E cinge ao coração o belo e o monstruoso.
Para ela o chacal é, como a rola, inerme;
E caminha na terra imperturbável, como
Pelo vasto arealum vasto paquiderme.
Na árvore que rebenta o seu primeiro gomo
Vem a folha, que lento e lento se desdobra,
Depois a flor, depois o suspirado pomo.
Pois essa criatura está em toda a obra:
Cresta o seio da flor e corrompe-lhe o fruto,
E é nesse destruir que as suas forças dobra.
Ama de igual amor o poluto e o impoluto;
Começa e recomeça uma perpétua lida;
E sorrindo obedece ao divino estatuto.
Tu dirás que é a morte; eu direi que é a vida.

Machado de Assis