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terça-feira, 13 de março de 2012

Chamados por Deus para sermos putos: Um ensaio Teo-psico-cinematográfico sobre as crises humanas.




Dedicado à Clayton Rêgo Lins e Samuel De Pádua (Samuca ex STBSB)

 Puto! Puto! porque me persegues?  (Joesaulo).

“Quando você não pode olhar dentro da alma de alguém, tente ir embora e depois voltar”. (Poema de Pasternak)

          Há mais ou menos três anos atrás, num domingo após um culto bem divertido, eu, Clayton, Will, Silvia e Luciana resolvemos reforçar nossa afetividade bebendo a urina de Cristo (cerveja) na casa do Clayton lá na Penha. Quem me conhece sabe que eu sou ruim de copo, pois depois da terceira leva, eu já começo a falar coisa com coisa, no entanto, naquele dia eu tomei todas e fiquei inteirasso, no entanto, o Clayton seminarista ficou muito doido.

          Já passava de meia noite quando resolvemos voltar. Pedi ao Clayton que me levasse até o Seminário do Sul. Naquela época eu ainda era patrimônio do Pavilhão XIX. Não sabia se iamos chegar vivos porque o motorista estava bêbado e sair no Rio depois das 00 horas é um risco de vida, no entanto, Clayton além de seminarista, é taxista, policial, cantor e marido nas horas vagas, daí ele pegou uma arma calibre santo e colocou um cinto cheio de balas e fomos para a Tijuca (naquela época eu morava lá). Quando entramos no quarto, nos deparamos com o Samuel (Grande Sam o Esteta) que estava numa crise sinistra que incluía depressão, não desejo de tomar banho e implicações teológicas pois ele acentuava que o problema do cristianismo é a metafísica. Daí apresentei o Clayton para o Sam, daí já viu NE? Conversa entre um bêbado e um depressivo crônico ...imagine o papo que rolou...

          Enquanto o Sam expunha suas decepções e raivas com a existência, Clayton assinalava que eu havia dito que ele  (Sam) era um jovem músico, teólogo, poeta hiper talentoso e que poderia ser uma benção na nação brasileira, no entanto, Sam retrucava dizendo que não ia dar não...Mas Clayton insistiu: Porque não vai rolar mano? “Porque eu estou PUTO com Deus, puto com minha família, puto com meu pastor, puto com meus amigos, puto com o Seminário do Sul, puto com o síndico do XIX, puto com minhas namoradas (tinha 4 MSN diferentes e 3 Orkut), enfim, estou puto comigo mesmo pois nada dá certo prá mim, eu não consigo terminar os cursos que começo...tranquei o curso de teologia várias vezes como se trancasse a porta do meu quarto“...O que fazer? Prá onde ir? Quem tem a senha da vida eterna?

          Sam via o fantasma da negatividade em tudo, no entanto, basta acreditarmos num fantasma que ele existirá para nós. Penso, logo a coisa existe prá mim. Basta pensarmos em algo, para haver realidade psíquica em nós. A grande questão não é se existe ou não aquele objeto no mundo real, mas o que aquele fantasma representa para aquela determinada pessoa naquele determinado momento?

          Clayton ouviu atentamente as histórias malucas de Sam, relatos de culpa, porque aliás, a culpa é um fantasma malvado que nos maltrata incessantemente. Quando o Sam desabafou que estava Puto com Deus, então o Clayton mesmo chapadão, usou de sensibilidade inconsciente e profetizou no Palace XIX: “Somos chamados por Deus para sermos Putos”.
          Deus nos chama do jeito que somos, do jeito que estamos. Eu venho como estou, eu venho como estou, porque Jesus por mim morreu, eu venho como estou diz a letra de um velho hino cristão. Sam arregalou os olhos e desabou em risos pois aquela palavra inesperada abalou as guaritas mais secretas. Como diz o cineasta sueco Ingmar Bergman no filme ATRAVÉS DO ESPELHO: “Traçamos um círculo imaginário ao nosso redor para afastar aquilo que não faça parte do nosso jogo secreto. Cada vez que a vida rompe esse círculo, os jogos se tornam insignificantes e ridículos. Então, construímos um novo círculo de defesas”. Mas Sam ficou desarmado naquela noite histórica.
               Quando o Clayton foi embora,  Sam comentou comigo: “Joe, esse seminarista do Longuini é porra louca demais...cara!! Adorei o cara, manerasso bicho...se fosse outro moralista, teria me afundado mais ainda no fundo de meu poço de águas crisicas. Ao invés de ele pedir pra eu orar, ler a Bíblia, encher o saco de Deus, fazer penitências, ele reconheceu meu estado humano, minhas fragilidades, meu clamor, minhas revoltas, minha dor profunda, meus anseios e desejos, meus recalques de seminarista desiludido com tudo“. Nessas horas de choro é preciso chorar com os que choram e cantar: “encoste a sua cabeçinha no meu ombro e chora (...); ame o seu próximo como se fosse você, como se a dor que ele sente fosse a que sente você“. Nessas horas é preciso suportar o silêncio da ausência de voz, é necessário ouvir o grito pois no grito há salvação. Não fuja das crises!!! Nem olhos viram, nem ouvidos ouviram o Deus preparou para nós naquele dia de festa e dor, de álcool e doença. Vimos a Glória de Deus ao ver Sam, Clayton e eu morrendo de rir depois da profecia alcoólica de Clayton pois o clima mudou e tudo se fez novo. Sam viu uma luz no fim do túnel, pois a luz é o animal visível do invisível.

          Durante a trajetória terrena, Sam errou e acertou, mas na vida, tudo é caminho ou está “a caminho”, como na palavra TAO. Como pensava Martin Heidegger,  nunca caminhamos sozinhos, pois o Eu nunca está só na sua experiência do Dasein (ser-estar-no mundo). Durante a caminhada, o mundo vem ao nosso encontro em forma de coisas e escolhas. O filme O curioso caso de Benjamin Buttom nos ensina que a vida consiste de oportunidades que perdemos e daquelas que aproveitamos. Somos a soma de todas as nossas escolhas diz Wim Wenders em Asas do Desejo.

          Ter sido velha de Sam, foi um grande achado para mim. Pensei até em escrever uma tese de doutorado sobre a vida de Sam. Seriam necessárias muitas páginas porque Sam  foi um cara de cara prá vida, pois em todo momento ele jogou limpo consigo mesmo, como fez Sabine Spielrein, conhecida mundialmente por ter sido paciente e amante de Carl Jung. Aliás Spiel em alemão é jogo e rein é limpo. Spielrein significa Jogo Limpo. A história esqueceu Sabine Spielrein que foi lembrada apenas pelas crises e momentos afetivos que ela passou com Jung, no entanto, ela fez mais do que isso pois, atuou como psicoterapeuta na Creche Branca, escola moscovita voltada para a educação infantil. Ela fez um grande trabalho social lá no início do século XX.

          Num dos depoimentos durante o filme “Jornada da Alma” de Roberto Faenza, um velhinho relata que quando ela lecionava nos anos 20, havia muitas crianças, no entanto, uma delas passava o dia todo debaixo de uma mesa com os olhos fechados e com as mãos entrelaçadas. Ninguém conseguia separar aquelas mãos. Sabine não desistia na luta para libertar aquele menino daquele isolamento interior. Um certo dia, ela teve uma idéia genial ao trazer um macaco para tocar um piano de brinquedo. A criança ao escutar aquele som, foi abrindo os olhos paulatinamente e pela primeira vez abriu um sorriso naquela creche. Ao ver aquela cena animal-musical, as algemas que prendiam aqueles dedos foram se derretendo. “Sabe quem era aquela criança? perguntou aquele senhor. Era eu. Nunca vou esquecer o que Sabine fez por mim disse ele“.

          Mesmo que por acaso, talvez a grande sacada de Deus, foi levar o Clayton no nosso quarto, pois a simpatia claytiana fez com que as correntes que aprisionavam Sam derretessem com o passar do tempo. Como ocorreu com Sabine Spielrein, acredito que Sam foi vítima da história, dos colegas que desprezaram e viram nele um caso perdido, isto é, disseram que Deus fabricou-o para ser um herói, mas os acontecimentos fizeram ele se tornar um idiota. Porque eles pensaram dessa maneira? Porque não souberam esperar e recuar quando foi necessário, pois conhecer o outro com profundidade leva tempo e exige feeling. Como diz o poeta Pasternak“ Quando você não pode olhar dentro da alma de alguém, tente ir embora e depois voltar”.

          Moral da história: Sam voltou a estudar teologia no Seminário Teológico Betel (teve que recomeçar)...começar de novo (vai valer a pena ...); Sam está namorando com uma linda mulher (musa Adriana) e estão se amando loucamente; Sam é o atual diretor do ministério de música na Igreja Batista em Engenho de Dentro sobre a tutela do grande pastor Marcos Azen (aquele que tem coração e barriga de mãe). Sam é um exemplo de quem deu a volta por cima e reviveu; estava perdido e foi achado; Se trancou mas foi aberto com chaves viventes.

Vale a pena eu lembrar dessa história de angústia e felicidade , pois quem escreve a sua própria história herda a terra dessas palavras diz Godard.



Deixo como reflexão a linda e emocionante canção de Ivan Lins e Victor Martins.

http://letras.terra.com.br/ivan-lins/99567/  (clique e veja o vídeo cantado).





Começar de novo e contar comigo
Vai valer a pena ter amanhecido
Ter me rebelado, ter me debatido
Ter me machucado, ter sobrevivido
Ter virado a mesa, ter me conhecido
Ter virado o barco, ter me socorrido



Começar de novo e só contar comigo
Vai valer a pena ter amanhecido
Sem as tuas garras sempre tão seguras
Sem o teu fantasma, sem tua moldura
Sem tuas escoras, sem o teu domínio
Sem tuas esporas, sem o teu fascínio
Começar de novo e só contar comigo
Vai valer a pena já ter te esquecido
Começar de novo...



FILMOGRAFIA UTILIZADA NO TEXTO



Os segredos de uma alma. George Pabst, 1926, Alemanha, 75 minutos.



Jornada da alma. Roberto Faenza, 2003, Itália.




Freud alem da alma. John Huston, 1962, Estados Unidos.


O curioso caso de Benjamin Buttom. Scott Fitzgerald, 2009, EUA, 151 minutos.







Asas do Desejo, Wim Wenders, Alemanha, 1987.




Através do Espelho, Irgmar Bergman, Suécia, 1961.




Spellbound (Quando fala o coração), Alfred Hitchcock, 1945, EUA, 141 minutos.








sexta-feira, 2 de março de 2012

JESUS E A GANGUE DOS SAMURAIS: Uma Heresia Sexy Cinematográfica




Dedicado aos Prof Dr Roberto Machado (filosofia UFRJ) e aos Professores Dr Osvaldo Ribeiro, Reverendo Dr Luiz Longuini e. Prof.Dr. rev Edson Fernando (teólogos de esquerda PUC-FABAT-BENETTI), Profa.Dra. Andrea França (cinema PUC), Consuelo Lins (cinema e cultura de massas-ECO) e Adriana Fresquet (cinema e educação FE) e Reuber Gebarssi Scofano (filosofia prá todos –FE-UFRJ)

"É preciso que as coisas mudem de lugar para que permaneçam onde estão"
Tancredi Falconeri, em  filme O Leopardo de Luchino Visconti.

“É preciso jogar a imaginação na escrita porque a realidade também é subjetiva” (Roberto Machado)

             Adoro o cinema europeu, o cinema oriental porque os cineastas são cabeções e me estimulam a pensar. Curto demais o Akiro Kurusawa. No filme OS SETE SAMURAIS ele conta a história de uma tribo de camponeses que era constantemente atacada-assaltada por uma gangue de bandidos que roubavam alimentos, etc. O chefe da tribo resolve contratar um samurai experiente e hiper competente, porém, ninguém dava muito crédito à ele na cidade pois nunca havia sido um campeão. Daí ele arregimenta mais 6 samurais e montam um grupo perfeito (SETE). O samurai chefe treina com os demais e bola estratégias de como vencer a gangue de 40 salteadores. Era a estratégia contra a quantidade e melhor estrutura. No final a qualidade estratégia vence a quantidade estrutural. Lembrou-me o episódio de João 1 principalmente a frase que João vira para a comunidade joanina e diz: pessoal! Pare tudo, olhe atentamente (behold), pois aqui está o cordeiro ativo de Deus que carrega os pecados do mundo. Imagino que a galera não demonstrou muita confiança naquele Messias, pois ele era muito na dele. Mas esse guri fez toda a diferença desde a infância. Algumas histórias dos textos apócrifos mostram o menino Jesus atravessando paredes, brincando de barquinho, aprontando anormalicamente. Há a narrativa do confronto do guri com os doutores da lei trocando altos papos teológicos-filosóficos. Há aquele episódio macabro que ele encontra uma gangue de demônios e ele rapidamente resolve a parada transferindo os capetinhas para os porcos. “Nada se perde, tudo se aproveita”, disse Ele ao rapaz aliviado. Jesus não era um samurai kurusawiano, mas ele juntou e treinou uma equipe bem diversificada incluindo desde zelotes lutadores da pesada até pescadores. Para o sucesso nas batalhas, contava com a ajuda tanto de surubins e de serafins. Na hora que o bicho pega qualquer santo ajuda, alertava ele aos discípulos. Ele costuma a avisar: Se liguem, pois integridade não é sinônimo de imunidade. A figura de Jó era um exemplo citado porque ele era uma fortaleza, um forte de integridade e espiritualidade, entretanto, toda boa fortaleza deve sempre possuir uma brecha para atrair o inimigo para dentro e pegar de surpresa. O problema é que no caso jóiano, o inimigo entrou e fez a festa, até o Deus bom se recuperar, coitadinho do Jó...mas ele cantou: te louvarei não importam as circunstâncias.

          Jean Luc Godard ao contar a história do nascimento de Jesus com elementos da modernidade via filme JE VOUS SALUE MARIE, ele menciona o conselho do anjo francês: “Maria! Seja pura, seja dura, apenas siga o seu caminho, não esqueça. E ela assim o fez, e o menino nasceu e cresceu cheio de sabedoria, graça e ousadia. Ele sempre vivia dizendo: ”Pessoal, no mundo tereis aflições, mas tendes bom ânimo, não desanime e bola prá frente”. Jesus era nietzschiano porque decretou a morte do Deus do templo de Jerusalém. Era foucaultiano porque dominava a arqueologia do olhar enxergando no fundo as necessidades das pessoas. Era espinosiano porque proporcionava muuuuuuuuuitos bons encontros. Era adorniano porque pregava uma educação contra a barbárie; era freudiano porque estava atento ao mal estar da civilização; era deleuziano apostava na relevância da diferença e da originalidade; era schopenhauriano e bergsoniano porque valorizava a intuição, vontade e representação; era kantiano porque observava a condição de possibilidade; era proustiano porque adorava expressar sobre impressões cotidianas; era tillichiano porque acreditava na dinâmica da fé subjetiva diante da tese DEUS É SÍMBOLO PARA DEUS; era roggeriano porque valorizava a educação centrada no aluno; era John Stottiano pois defendia que crer é também pensar; era batista-budista porque dialogava com a diversidade; era jobiniano pois entendia do medo dos medos (eu quis amar mas tive medo cantou a mulher adúltera); era junguiano pois tinha experiência com os arquétipos e a jornada da alma; era Woody alleiano pois sua vida também tinha uma pitada de comédia porque valorizava a saúde...sorria porque eu te amo...alegrai-vos com os que se alegram e chorai com os que choram.

          Jesus não discriminava pessoas, até mesmo quando rolava desperdício como foi o caso daquela mulher que derramou o perfume caríssimo nos pés de Jesus enxugando-o com os seus cabelos. Jesus disse à platéia pão dura: ela assistiu ao filme A FESTA DE BABETE e sabe do valor de dar tudo que tem por um momento de amor profundo e sincero. Num ato de amor sexual, há enorme desperdício de espermatozóides que não conseguem fecundar o óvulo (180 milhões morrem). Jesus não economizava amor em meio aos riscos da pluralidade. Jesus era deleuziano, portanto, ele sacava que tudo eram signos e que é preciso saber interpretar signos. As pessoas cantavam a música LEIA NA MINHA CAMISA de Caetano Veloso e Jesus sabia ler com fluência tanto as camisas da Barra da Tijuca quanto a camisa da Pavuna, da Rocinha, de Ipanema, do colorido mistureba de Copacabana, etc, lia até de paulistas. Tomava vinho importado e vinho sangue de boi, como tomava champanhe importado e guaraná TOBI e suco de caju quando necessário. Quem não sabe ler as camisas acaba pagando mico.

           Jesus se recusou a transformar pedra em pães porque disse ao diabito: campeão! Quem ama espera. Imagino que tenha tomado um porre de Red Bull com Shake mix de baunilha da Forever, dai deu para aguentar o tempo de Deus no deserto (tempo da liberdade cronológica; tempo acronológico da não sucessão). Tempo divino inclui o tempo da simultaneidade do sucessivo, o paradoxo do tempo, momentos do tempo como dizia Beckett. Ele também se recusou a saltar do pináculo do templo porque era vertiginoso. Jesus era hitchochiano e provavelmente tinha assistido ao filme VERTIGO (corpo que cai). Jesus disse ao capeta: “non non nin non non...cada um com suas loucuras, mas...uma parte de mim tem medo, a outra é cética”. O diabo queria estimular a fé de Jesus à enésima potência. Ao ser interrogado na festa de Caná da Galiléia sobre o porque do vinho novo só ter sido servido no final ele citou Proust:” o que é precioso só se descobre por último”. Geralmente se serve o ruim no começo logo porque depois de bêbado o sujeito toma desde vinho sangue de boi até cerveja itaipava..tá porre mesmo.

          Jesus disse que para entendermos o reino de Deus era preciso entender a dinâmica dos ciclos, pois é preciso nascer de novo, voltar a ser criança. Jesus exemplificou isso no ESTRANHO CASO DE NICODEMOS BUTTOM. Tudo nasce, tudo cresce, reproduz e morre. Somos blocos de energia condensada que passeamos dinamicamente em meio a um universo de energia. Quando morremos, esse bloco de energia condensada se dissolve, no entanto, os átomos e partículas se espalham universo afora e irão gerar novas formas de energia, portanto, nenhuma condenação há para todos os blocos, pois todos são e vieram da SUPREMA -AMORFA ENERGIA (ENERGIA TOTAL=Deus). Estamos Nele e retornaremos a Ele na morte. Todos nós nascemos de novo, via rejuvenescimento de células, desintegração e migração de átomos, partículas, quarks, etc. Até Jesus ao morrer, retornou via ressurreição de forma diferente e subiu aos céus novamente. E o vento levou...  Jesus era nietzschiano-deleuziano e valorizava o eterno retorno do diferente.

          Jesus ao encontrar as pessoas doentes, deprimidas, machucadas afetivamente, discriminada, desacreditadas, etc, ele costumava cantar a música de Ivan Lins: “O amor tem feito coisas que até mesmo Deus duvida, já curou desenganados, já fechou tantas feridas, fica tão cicatrizado que ninguém diz que é colocado”. Ao se despedir desses aflitos ele mandava a real sem frescura: Fulano! Ciclano! Beltrano! O tempo cura, mas... e se o tempo for a doença? Então é preciso se curvar perante ele para continuar vivendo. Ronaldo fenômeno é um exemplo de gênio HUMANO DEMASIADAMENTE HUMANO, amado e conchavo de Deus, pois mostra a força da recuperação-superação (selbstaufhebung) em meio aos travécos e bolas na trave, mas ele sempre acaba nos braços do GOL inflamando uma torcida e fazendo a taça pegar fogo. Zaratustra era cinza e virou fogo...acho que era corintiano também.

          Jesus odiava a síndrome da canonização bíblica, da teologia correta dos cânticos e hinos, pois tinha plena consciência que diante do Mistério não há possibilidades de regras e gaiolas doutrinárias. Diante de DEUS há sempre um EU e todo ser humano possui um vazio do tamanho de Deus. É a presença de uma ausência, diria Rubem Alves e também acrescenta: para voar é preciso amar o vazio e como assinalava o físico Heisenberg, “diante dos vácuos há sempre condição de possibilidade”. Acheguemos diante de Deus com nosso louvor hamartiano-barthiniano e ele se alegrará conosco e com as nossas VERDADES, pois cada um tem a sua VERDADE. Deus é Espírito e onde há o Espírito há a liberdade para erotizar e heretizar liturgicamente. Culto criativo pode ser pensado semelhantemente à uma obra em que o compositor apesar de estar apoiado numa ancora modelar, ele cria e executa desprendido de regras de harmonia, contraponto, etc, objetivando uma nova sonoridade, um novo sabor. Jesus foi o maior transgressor teológico ao ferrar com a teologia da inércia litúrgica-geográfica ao dizer ABA Pai (paizinho). Segundo o teólogo alemão Joaquim Jeremias, essa expressão era usada somente dentro de casa por um filho de até 12, se falasse isso na rua, certamente tomaria umas porradas do pai e dos caras na rua. Jesus ao falar ABA PAI em alto e bom som, ele tava mandando os sacerdotes do templo de Jerusalém e sua liturgia centrada-engessada tomarem no cú e democratizando a adoração e ampliando a geografia litúrgica. Provavelmente tenha recomendado aos discípulos o filme ADEUS LENIN, adeus muro de Berlim. Jesus rompeu o contrato com a canonização do(s) modelo (s) bem antes dos filósofos da modernidade. É preciso dinamizar, kamasutriar liturgicamente sem fugir da âncora subjetiva que é o SAGRADO lembrando que não existem regras para criar o novo pois o talento é capaz de entrar em simbiose com a natureza (Kant). Quando avançarmos para desvendar nossos enigmas, é importante sempre retornar a base porque avançar sem chão é como liturgiar na vida eterna. Na vida eterna, só existe flutuações, mas nós precisamos de chão, queremos sentir o peso durante nossas aventuras litúrgicas-existenciais; precisamos voar, mas precisamos retornar e ancorar nos braços do PAI e até retornarmos novamente. Ele guardará a tua entrada e tua saída, desde agora e para sempre (Salmos 121).

           Jesus ao chamar os fariseus de raça de víboras e sepulcro caiado ele tava mandando um recado para muitos medalhões e moralistas que adoram usar o dedo de Deus para fuder os outros (se pudessem, usavam a pica de Deus). As pessoas levantam as mãozinhas para o alto, louvam ao Deus altíssimo (querem que Ele fique bem longe mesmo porque se Deus estivesse perto denunciava a fachada), promovem cultos cedinho para acordar (pertubar) Deus e mostrar espiritualidade, mas no fundo boa parte dessa gente é hiper elitista, apegada aos dogmas, homofóbicos, fundamentalistas ao extremo, adoram terninho e gravata e se acham detentores da verdade absoluta e pregam um cristianismo moleza da mentira de JESUS DORIL A DOR SUMIU. Esses não entram e nem deixam os outros entrarem no Reino de Deus. Isso remete ao filme TROPA DE ELITE quando mostra aquela cena da passeata dos playboizinhos da PUC do Rio devido a dois ou três playboizinhos (a) que foram linchados pelo tráfico no morro. Mathias disse: Isso é pura fachada, pois eles que consomem drogas e ajudam a manter o tráfico com manequins de ONGS.

           Jesus quando colheu espigas no sábado ele quebrou regras para matar a fome, embora não acreditasse na utopia do FOME ZERO. Isso me lembrou o filme DEPOIS DA CHUVA de Akiro Kurosawa que conta a história de um samurai que lutou por dinheiro algumas vezes para trazer comida para uma família faminta e por isso ele nunca parava em emprego nenhum porque na cultura samurônica lutar por dinheiro era um pecado gravíssimo. Apesar de ser hiper competente como samurai, ele sempre quebrava as regras em nome da generosidade.

          Viver dentro do quadrado é fácil, o difícil é viver fora do quadrado, pois viver fora do quadrado é viver debaixo da instabilidade. Jesus disse: quem quiser me seguir tome a sua cruz e siga-me. Viver fora do quadrado é viver pela fé. Nietzsche assinalou: A vida é um risco e quem não se arrisca não vence.

         Ao conversar com a mulher adúltera ele precisou usar o lado feminino para entender aquela mulher. Ao ver a muvuca condenativa-discriminativa ele perguntou aos machista-moralistas: quem não tem mais de uma personalidade que atire a primeira pedra. Todo mundo ficou pianinho. Jesus não se preocupava com a nudez do corpo, pois é mais inocente do que a nudez da alma na qual os sacerdotes costumam lidar. Jesus se relacionou com ela via chavécos espirituais e depois recomendou à ela o filme CIDADE DAS MULHERES (Citta de la Donna) de Frederico Fellini. Jesus se relacionava com a diversidade e dualidade apolínea-dionisíaca e bem que poderia ter profetizado que o homem teria a Sodoma e a mulher teria a Gomorra. Imagino que ele sonhava e tinha altos papos paranormais com Proust e Foucault porque não tinha saco para ouvir o apóstolo PAULO. Para Marcel Proust, em SODOMA E GOMORRA está o segredo da sexualidade ou da homossexualidade. Proust escreve sobre a teoria da sexualidade ou homossexualidade no início do livro SODOMA E GOMORRA. Ele fala sobre a CÓPULA CONTRA A NATUREZA onde cita o Zangão e a orquídea. Para Deleuze, a teoria de Proust é sobre a transsexualidade. Todos nós somos uma coisa e outra. Temos uma parte masculina e feminina.. Quando nos relacionamos com o outro, a nossa parte masculina pode se relacionar com a parte feminina do outro, ou a parte feminina pode se relacionar com a masculina do outro, ou a nossa parte masculina pode se relacionar com a parte masculina do outro, ou a nossa parte feminina pode se relacionar com a parte feminina do outro. Podemos ter várias possibilidades de relação. Como dizia Roger Bastide: “Eu sou mil possíveis em mim, e não me resignarei a ser apenas um deles”.

         Jesus adorava a trilogia das cores, vibrava com a bandeira do arco-íris e em suas horas vagas costumava assistir filmes do cineasta polonês Krzysztof Kieslowski, pois nas imagens há a interação dos elementos igualdade, liberdade e fraternidade. Quando Jesus passava em frente ao templo de Jerusalém ele era nietzschiano de carteirinha com LIBERDADE SIM, IGUALDADE JAMAIS, mas durante os momentos de comunhão, ele regia SOMOS TODOS IGUAIS NESTA NOITE de Ivan Lins. Como era kieslowskiano, ele sabia da força do acaso e não se assustou quando Judas deu um selinho, mas apenas engoliu sapo sem fazer cara feia.

         Jesus ao ceiar com os discípulos naquele local reservado, ele envolveu-os num labirinto de felicidade partilhada. Jesus recitou trechos da filosofia do corpo de Merleau Ponty e em seguida acredito que eles assistiram ao magnífico filme: O SÉTIMO SELO de Irgmann Bergmann e partiu para a vida. Ele compartilhou com três discípulos o conflito com a morte no Getsemani. Enquanto Jesus jogava xadrez com a morte, os discípulos dormiam. Ao dizer: Pai! Passa de mim esse cálice, ele embaralhou as peças do xadrez tentando adiar a morte, mas a morte recolocou as peças no seu devido lugar. Apesar de Jesus não saber se existe destino, ele sabia que existe decisão. Jesus ouviu a voz de Kierkegaard que dizia: “recusar o risco é recusar a verdade”, portanto, caminhou rumo a cruz. Foi crucificado, e ressurgiu, no entanto, na ressurreição nenhum ser mortal foi concebido, mas sim um quadro imortal compartilhado.

          Jesus antes de subir aos céus novamente, ele assistiu ao filme ASAS DO DESEJO de Wim Wenders disse para si mesmo e aos outros: “sei que existem outros sóis além destes que eu vejo. Em mim nascerão asas novas que substituirão essas velhas; essas asas novas me deixarão surpreso. Na casa de meu pai há muitas moradas e vocês se surpreenderão com a arquitetura de meu Pai, pois ele é um esteta”.

          Jesus adorava botar Pedro na parede com carícias afetivas fraseológicas porque ele era proustiano, portanto, ele sabia que por detrás do amor está o ciúme. No fundo ele queria saber se Pedro era Pepê ágape, Pepê filos ou Pepê Eros (pepê von Lieber). No famoso episódio de João 21.15 narra o bate papo entre Jesus e Pedrinho após um jantar. Jesus pergunta: Pedrinho! Tu me amas (agapos) mais do que os nossos amigos? Pedro respondeu: Sim você sabe que eu te amo (filo-Lieber). Jesus perguntou pela segunda vez e pepê respondeu a mesma coisa. Putz! Só cadências deceptivas, porém afetivas...Jesus perguntou pela terceira vez a mesma coisa porque Jesus esperava uma cadência à dominante agapeana, entretanto, Pepe não baixou a guarda e falou: Lindo! Tu sabes que eu te amo (filo) porque eu tenho afeição e nossa amizade tem uma energia e vibrações afetivas fortemente divinas. Então Jesus deu um bônus-missão a pepe recitando Mário Quintana: meine Lieber Pedro! “cuide do jardim que as borboletas aparecem”, aproveite e pastoreia (poimaine) minhas ovelhas afinal Pepê os meus amigos também são os seus amigos, então brother, cuide deles (a).

          O problema é que quem ama mente (também) e foi só pepê ficar em apuros que ele negou Jesus três vezes. Judas emprestou a Pedro o DVD da comédia alemã APRENDENDO A MENTIR (lernen lügen) daí Pedro virou conchavo-advogado do diabo. No filme, a mentira rola solta, mas o ator come três mulheres, no entanto, na “comédia” bíblica, foi o galo barraca que fudeu Pedro deixando ele em choro e ranger de dentes. Pepê enfurecido disse: Galo safado! De conchavo você não tem nada, mas o dia tinha amanhecido.

         Jesus foi considerado um desertor, um ousado, um perigoso e um incompreendido por muitos há mais de 2000 anos. Até hoje, muitos não compreenderam a proposta de Jesus com esse cristianismo vergonhoso de manipulação de massa em Nome de Deus. Talvez um François Truffaut conseguisse compreender um INCOMPREENDIDO transformado equivocadamente em forma de cordeiro. Jesus sem dúvida escreveu uma nova história e para isso foi preciso abrir um buraco nas palavras em busca de um pensamento diferencial (Deleuze). Como diz Rubem Alves: “nós somos aprisionados pelas palavras dogmáticas em Nome de Deus”. Na medida em que Jesus ia abrindo buracos na teologia sacerdotal, as pessoas iam entrando e ouviam palavras de esperança, pois o jugo de Jesus é suave, seu fardo é leve, mas a sua proposta é meio punk. Jesus sabia fazer amor com as palavras, pois usava musicalidade nas parábolas (ENSINANDO PARÁBOLAS MUSICALMENTE por Cristo Swanwick). Jesus estava atrás do tempo perdido, do tempo redescoberto.

     Isso faz nos pensar que a obra de Jesus cria a sua própria posteridade.

    Abraços

 Joeblackvan